Douro Film Harvest
Gustavo Santaolalla. Dois Óscares sem saber ler nem escrever
por Pedro José Barros, Publicado em 09 de Setembro de 2010
O músico e compositor está em Portugal e falou ao i sobre discos, cinema e a sua paixão por vinho
Tinha apenas cinco anos quando começou a tocar guitarra, mas nunca o fez segundo ditames académicos. Aos dez, a professora que o acompanhava, "muito frustrada" com o não seguimento das regras, desistiu de o ensinar: "O ouvido dele é mais forte que a minha música", declarou à sua mãe. O argentino Gustavo Santaolalla continua "sem saber ler ou escrever música", mas não foi isso que o impediu de criar e arrecadar 15 Grammys e dois Óscares para melhor banda sonora original. O i falou com o compositor e músico no Douro Film Harvest, onde este ano é convidado especial.
Gustavo Santaolalla não sabe como surge a inspiração, diz que se limita a responder a uma "busca espiritual". Para ele, a possibilidade de criar "é como um dom", algo "para além de nós" e que o leva a querer "tentar saber mais sobre quem somos". Santaolalla sente essa curiosidade desde a infância e as constantes viagens que faz pelo globo ajudam-no a satisfazê-la.
Mesmo não tocando instrumentos, os seus pais foram sempre "compradores ávidos de discos" e por isso cresceu entre estilos distintos. Mas se nasceu como artista foi a partir do rock, género em que é tido como um pioneiro na América Latina. "Venho de uma geração em que queríamos mudar o mundo. O rock era mais uma espécie de atitude. Podias ter alguém como Jimi Hendrix ou como Donovan a tocar em acústico, e tudo isso era rock. Ainda trago comigo essa energia, ela é muito importante em tudo o que faço", refere.
Santaolalla sente-se "abençoado" por ter podido viver as transformações sociais dos anos 60 e 70, recordando referências como os Beatles, Che Guevara, Timothy Leary e até as filosofias orientais. "Mesmo que não tenhamos mudado o mundo, trouxemos certamente muitas novas formas de encarar a vida, e ainda o fazemos. Ainda guardo a chama que começou nessa geração", garante.
Fusões estilísticas No início concentrava baterias num projecto de cada vez. Foi assim quando integrou as bandas Arco Iris, Soluna e Wet Picnic. Mais tarde expandiu horizontes e pôs o talento "também ao serviço de outras pessoas", produzindo inúmeros discos.
Hoje vê-lo concentrado apenas num trabalho é quase impossível. Criou em 1997 a Surco, primeira editora regional latina, que acolhe nomes como os Molotov, Juanes ou Orishas. Continua a criar e a produzir outros artistas, tem uma pequena editora de livros, uma banda chamada Bajofondo Tangoclub e até uma vinha na Argentina. Faz muitas coisas a toda a hora e explica porquê: "Tenho de criar, não conheço outra maneira de viver."
O seu processo criativo bebe bastante da fusão estilística e formal. No projecto Cafe De Los Maestros, por exemplo, juntou "os maiores músicos de tango vivos dos 70 aos 95 anos". Tocavam "tango puro", mas com os Bajofondo aventura-se na música contemporânea latina. O propósito é duplo: "Preservar alguma arte na sua forma mais pura e também fazer música que reflicta quem somos hoje."
Fizeram-lhe a vida "miserável" Nem só de rosas se desenhou o percurso de Gustavo Santaolalla. Atravessou na Argentina um período "muito negro, que terminou com o desaparecimento de 30 mil pessoas às mãos do governo", refere. Até sair do país, "por razões de segurança", esteve muitas vezes na prisão.
Não o feriam e nunca o encarceraram por mais de três dias, porque "não conseguiam provar nada", mas faziam-lhe a vida "miserável". Porquê? "Porque acreditavam que as pessoas que tinham cabelo comprido, guitarras eléctricas e que tocavam rock atentavam contra os valores morais."
Prémios na Sétima Arte Igualmente bem sucedida é a criação de bandas sonoras para filmes. Assina a música em películas de Alejandro González Iñárritu ("Amor Cão", "21 Gramas" e "Babel"), Walter Salles ("Diários de Che Guevara") e Ang Lee ("O Segredo de Brokeback Mountain").
Com "Babel" e "Brokeback Mountain" recebeu o Óscar para melhor banda sonora original. Contudo, diz que nunca fez música para um filme "com o intuito de ganhar um Óscar". Encara a distinção como "um reconhecimento" do seu trabalho. "Bom e gratificante é a noção de que fiz algo importante para muita gente", salienta.
Antes de a música nascer, Gustavo Santaolalla gosta de ler o guião do filme e de conversar com o realizador. Prefere trabalhar a partir da sua "ligação à história e às personagens" e não baseando-se nas imagens. Muitas das suas músicas foram mesmo feitas antes de qualquer filmagem ter começado, sendo "O Segredo de Brokeback Mountain" o maior exemplo disso, já que "toda a música foi criada antes da rodagem". Por vezes é complicado "chegar ao take certo" de acordes aparentemente mais simples e de grande efeito, como os deste filme, mas tudo acaba por "fluir".
Santaolalla considera os realizadores com quem trabalhou "artistas muito importantes e relevantes". Todos "muito diferentes, mas muito similares no sentido em que sabem o que querem e têm uma visão artística fantástica".
O fado Gustavo Santaolalla terminou uma digressão asiática com os Bajofondo e está a trabalhar num disco em Portugal com a fadista Cuca Roseta. O álbum deverá sair "antes do final do ano". Diz que gosta de Portugal e "idolatra" o amigo Carlos do Carmo. Está também envolvido na produção de outros discos, como o de Antonio Carmona, em Espanha.
No cinema, prepara uma colaboração no novo filme de Walter Salles, baseado no livro "Pela Estrada Fora", de Jack Kerouac. Até ao fim do ano sairá também o filme que fez com Alejandro González Iñárritu, "Beautiful", com Javier Bardem.
Santaolalla é um aficionado de longa data de vinhos e acaba de lançar o seu no mercado, ao fim de cinco anos de projecto. Daí que se sinta "particularmente ligado" à região do Douro, "feliz" por participar no Douro Film Harvest, um festival "que celebra o cinema, a música e o vinho". O compositor tocará alguns dos seus temas numa exibição especial ao ar livre de "Diários de Motocicleta", no B. B. King Parque, em Sabrosa, amanhã às 22h. Esta sessão Moon Harvest é gratuita e aberta ao público.
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