Igreja lança a primeira grande sondagem nacional

Publicado em 08 de Setembro de 2010   
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A Conferência Episcopal anunciou ontem a encomenda da primeira grande sondagem nacional sobre as expectativas dos portugueses relativamente à Igreja Católica. Trata-se de "arriscar saber o que é que a sociedade de hoje espera da Igreja e ver depois que passos a Igreja pode dar, na fidelidade aos evangelhos", segundo afirmou ao i Manuel Morujão, o padre porta-voz da Conferência Episcopal. Os resultados deverão ser apresentados daqui a dois meses, na assembleia plenária do Episcopado, que decorre entre 11 e 13 de Novembro.
A sondagem tem como alvo toda a sociedade e não apenas os católicos: portugueses de outras religiões, ateus e agnósticos também vão ser objecto do estudo de opinião. A questão fundamental, segundo Manuel Morujão, "é saber se estamos a dar respostas a perguntas que não são feitas" ou a não encontrar "soluções para problemas que existem". Em suma, resume Manuel Morujão, a Igreja quer ser "mais realista na sua acção no meio da sociedade". "A Igreja não vive para si mesmo, mas para servir a sociedade em que está, em nome de Cristo." O porta-voz da Conferência Episcopal utiliza uma imagem: "Para ensinar latim ao João, não basta saber latim, é preciso também conhecer o João." A Igreja quer conhecer melhor "com quem está a falar" e o que as pessoas esperam dela.
Manuel Morujão admite ser "natural" que a sondagem venha a revelar algum fosso entre a Igreja e a sociedade em geral em vários campos, como a aceitação do divórcio. No entanto, no seu objectivo de "adaptar-se ao mundo de hoje", a Igreja não dirá "concordo com tudo". A Igreja deverá ser "fiel ao fundador e à sua doutrina, mas adaptar-se ao mundo de hoje".
Ora, esta "dialéctica entre fidelidade e adaptação é um equilíbrio que não é fácil", afirma Manuel Morujão, "mas importa arriscar". "Numa bicicleta, a posição mais firme e estável é com os pés no chão", diz. O economista católico João César das Neves, afirma ao i que irá "seguir com interesse" os resultados da sondagem, mas recusa que exista por parte da Igreja "uma nova era", ou novos métodos de "marketing e comunicação". Para César das Neves, "a Igreja Católica usa meios avançados de comunicação e evangelização há muitos séculos, sendo uma das instituições mais antigas e mais bem sucedidas nesse campo". Para o professor da Universidade Católica, "as empresas, que só há umas décadas despertaram para esses temas, e que hoje se consideram muito sabedoras nisso, têm muito a aprender" com a Igreja Católicam "como, aliás, vários estudos científicos de gestão têm mostrado".
Já o teólogo Peter Stilwell reconhece a necessidade da Igreja ir beber à sociologia ou à psicologia para garantir outro tipo de abordagem. "Já não basta contar as cabeças nas celebrações, defende. "Temos a tentação de analisar a realidade a partir dos grupos em que estamos inseridos e esquecemos que isso é só uma parte do mundo", refere.
A sondagem agora encomendada (ainda estão a decorrer as negociações entre o episcopado e a Universidade Católica) integra-se numa decisão da conferência episcopal de Junho, que aprovou um programa para "repensar a pastoral da Igreja em Portugal". "Pretende-se envolver num caminho sinodal, em comunhão e colaboração, a nível diocesano e nacional, os múltiplos agentes pastorais", afirmava-se no "instrumento de trabalho", um guia para os agentes pastorais."Não se trata de realizar um sínodo nacional mas tão só adoptar o espírito e o estilo sinodal". Os bispos propunham como método o "discernimento pastoral": "Trata-se de um processo de observação, análise e perscrutação dos sinais de Deus na realidade da vida da sociedade e da Igreja." Os bispos começaram ontem a enviar cartas para os seus diocesanos para avançar com o processo.


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