Televisão

Estas são as regras de uma novela da Globo

por Vanessa Rodrigues, Publicado em 08 de Setembro de 2010   
O i esteve nos bastidores da TV Globo, a maior produtora da América Latina, a segunda maior "cidade" dentro do Rio de Janeiro. Bem-vindos ao mundo encantado das telenovelas
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1.º Episódio, o Enredo

Isto é tudo a brincar à vida real. E agora faça de conta que acredita. Pode chorar, rir, enternecer-se com as lágrimas do bom da fita, revoltar-se com a maldade da vilã. E ficar viciado à espera do próximo capítulo. Aí, já foi apanhado pela trama. No estúdio há um contra-relógio de estúdio em estúdio para gravar os próximos episódios, no Projecto Jacarepaguá (Projac). Para os leigos: Central Globo de Produção, no Rio de Janeiro. Uma espécie de cidade de quase dois milhões de metros quadrados, dez estúdios, floresta e gente a circular em carrinhos de golfe. Tem 15 anos e é onde o mundo das novelas acontece. Os principais habitantes dessa cidade chamam-se "globais". Você está habituado a vê-los, sobretudo, na televisão, num português mais adocicado. De "Gabriela" a "Passione", a mais recente telenovela de horário nobre do maior estúdio da América Latina (na SIC, de segunda a sábado, às 23h45), não há equívocos: estamos no terceiro maior complexo de produção de telenovelas do mundo. A primeira é a mexicana Televisa. Depois vem a BBC, pelas séries.

O cliché: luzes, câmara, acção. A actriz Cláudia Raia tem papel-prata na cabeça para fazer mechas de caracóis, tem as unhas a cheirar a verniz fresco e as mãos seguram um vestido que se arrasta pelo chão. Ouve-se o peso do tacão alto. Os olhos grandes estão por maquilhar. Senta-se à pressa no camarim. O cabeleireiro prende o cabelo à escova para alisá- -lo. O outro rapaz tira o pincel e começa a espalhar o pó no rosto. A pele ganha vivacidade rosada e blush. Este mulherão com 27 anos de experiência na Globo não conhece outra casa para fazer novelas. "Vim para aqui por acaso, nem queria ser actriz, era bailarina, mas já vinha habituada a estar em palco, então foi um processo natural", diz ao i depois do rímel. Mas, afinal, não há magia? "Claro que sim! É uma televisão com uma qualidade impressionante, tanto de imagem, de cenários como de talentos: o casting da Globo é o melhor do mundo e consegue reunir os melhores actores."

2.º Episódio, Acção

Folha gatafunhada colada ao painel do corredor do estúdio 4: as cenas do dia. Passa altiva Carolina Dieckmann (Diana). Rodrigo Lombardi (Mauro) está encostado à parede, a rever o roteiro com ar de não-me-incomodem. São os protagonistas da telenovela "Passione", de Sílvio de Abreu.

Homens de auscultadores pendentes no pescoço. Daqui a cinco minutos: ensaio de cenas de "Passione". Estúdio gigante. Paredes falsas. Janelas de brincar. Tecto alto, negro. Milhares de estruturas de ferro: holofotes pendentes. Parece que o tecto vai cair: não olhar. Luz ténue numa sala-cenário. Quatro câmaras à volta do cenário. A actriz Mayana Moura (Melina) de robe branco, sentada no chão, revê o roteiro. A sola das botas ainda tem a etiqueta colada. Dois ensaios básicos, cinco cenas em 20 minutos. Gravar. Dieckmann e Lombardi fazem piadas. Ela salta descalça para o colo dele. Sentam-se no sofá. Enrolam--se. Olho no olho. Apaixonados. É a sério, mas é a fingir. "Esta cena é muito parada, por que é que eles não continuam a conversar no chuveiro?", questiona a actriz. "Não. Tem que brincar um pouco mais. É a primeira vez que eles estão realmente juntos e sozinhos. É preciso envolver o público", contrapõe Natalia Grimberg, directora dos actores. Rendem-se. Gracejam. O próximo diálogo será a valer. Entram na casa-de-banho: realizador, actores, técnicos, operador de câmara. "Quero uma câmara aqui no corredor", ouve-se a instrução. "Eles se beijam aqui e vão directos", ordena Natália. "Vamos, gente! Primeiro gravamos a cena do telefone, depois passamos para eles. Entendido?"

Sai tudo do WC. A postos. "Silêeeeeenciooo". "Gravando". A luz vermelha de fora do estúdio acende-se. O corredor está vazio. Capítulo 96: cena 11 A. "Fecha o plano na câmara 1, abre na 2." Uma cena. Duas. Três. "Temos mais dez para gravar. Vamos até às nove da noite se for preciso."

3.º Episódio, Ritmo alucinante

É tudo muito rápido. Dez horas por dia. O turbilhão começa às 13h00 nos quatro estúdios onde se gravam as actuais quatro novelas da Globo: "Passione", "Ti-ti- -ti", "Escrito nas Estrelas" e "Malhação". Mais os principais programas como "Vídeo Show". "É uma grande indústria e o ritmo é frenético", admite Cláudia Raia. "Salvam-se os mais espertos: ou você entra no ritmo e consegue fazer um bom trabalho, ou corre mal." Uma espécie de escravidão, admite, desdramatizando. Já se habituou. "Quando o teu papel é grande, gravam-se 20 cenas por dia, volta-se a casa, decora-se para o dia seguinte". O segredo: disciplina. "Quando se entra no estúdio é o auge da alegria."

Cada novela-prime da Globo, como "Passione", tem 45 minutos por dia. Uma média-metragem. São 40 cenas que têm de ficar gravadas diariamente, para os seis capítulos semanais. "O grande desafio é estar preparado para o improviso", diz o actor Marcelo Faria (Guilherme), actualmente na novela "Escrito nas Estrelas". Ao contrário do teatro e do cinema, o fim da novela nunca está traçado. O personagem vai evoluindo e os actores têm de se adaptar. Algo muda sempre e a um ritmo delirante, reafirma Faria. "Temos de decorar o texto em casa, para poder treinar depois um pouco com o colega, chegar ao estúdio ou fazer a cena externa, ensaiar uma ou duas vezes e gravar."

É um processo em cadeia. Todas as semanas chega uma coisa nova: o texto, uma cena que mudou, uma reviravolta no enredo. E a antecedência do roteiro "depende do autor". Alguns entregam o bloco dos seis capítulos da semana uma semana antes. "Às vezes, não chega; chega um dia antes, ou no próprio dia", explica Faria. "Apesar deste ritmo alucinante, a Globo é um grande berço: projecta muitas pessoas. Nem sempre a pessoa tem um talento nato, vai aperfeiçoando, aqui". Actores do Olimpo? "A Globo tem essa força mitológica: de projectar as pessoas pelo Brasil inteiro e até para mundo, sobretudo para os lugares onde se fala português."

Últimos episódios,

Toda a mentira será perdoada

Os tijolos da fictícia cidade toscana Laurenza-in-Chianti, uma das cidades cenográficas criadas dentro do Projac, fazem um som oco. De longe parecem reais, ao toque dizem a verdade aos sentidos. Num primeiro olhar vemos uma cidade italiana, onde se gravam a maior parte das cenas de "Passione". O mesmo para o cenográfico bairro de São Paulo. Ganha vida quando as câmaras se ligam e os actores moram, por minutos, naquela cidade. A culpa é deles: dão realidade aos cenários, aos estúdios, às histórias. Um mundo encantado, com uma fórmula de sucesso que é já referência mundial.

A Globo vende novelas para 190 países. Está no livro do Guinness pelo número de novelas gravadas (260). Além da quantidade de produção, a qualidade das imagens é um dos segredos: a cor viva e saturada, a alta fidelidade do som, a pós-produção, a tecnologia HD, o complexo de produção convertido numa autêntica fábrica. Inventa-se cenários, fazem-se roupas, objectos de vidro especial (para não magoar os actores quando se partem), cerâmica, quadros, cadeiras, paredes, janelas. Tem até um armazém com roupas separadas por século. Milhares de chapéus, adereços. Um universo particular e "global" de glamour, fantasia, faz-de-conta. "Só cuidado para não se cair no cliché", adverte o actor Alexandre Nero (Gilmar), recém-chegado à Globo, vilão da novela "Escrito nas Estrelas". Critica o assédio da imprensa que tende "a rotular todos os actores como iguais: como se tivessem muito dinheiro e fossem todos famosos". Há magia, sim, admite, mas "esta é uma empresa como outra qualquer".


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