Portugal. Sílvio fintou o destino. Agora segue-se a Noruega

por Bruno Roseiro e Pedro Candeias, Publicado em 07 de Setembro de 2010   
Lateral que viu o pai morrer durante um treino na Luz e que passou do Chelsea para o Atl. Cacém faz estreia
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No avião "Autonomia", que levou a comitiva nacional para Oslo, só havia 18 lugares na classe executiva. E 19 jogadores. Alguém teria de ir em turística. Ninguém teve dúvidas: a sorte pequena saiu a Sílvio. O defesa do Sp. Braga sorriu, sentou--se, recostou-se na postura mais confortável do mundo e seguiu viagem para a capital da Noruega, onde é entregue anualmente um Prémio Nobel. O lateral fará a estreia pela selecção A na cidade mais cara do mundo. Ele que, desde pequeno, está habituado a fintar o destino. Hoje seguem-se os escandinavos.

José Mourinho elogiou recentemente o antigo jogador do Rio Ave, mas a ligação ao lisboeta começou bem mais cedo, quando ainda era treinador do Benfica. Sílvio, iniciado de primeiro ano das águias e capitão de equipa, fazia mais um treino num dos campos secundários da Luz quando, de repente, viu o seu pai perder a vida. "Foi uma veia que rebentou", relembra ao i Tiago Gomes, à data jogador do Benfica, colega e amigo de Sílvio. As conversas sobre a morte do "senhor Pereira" foram raras, quase nenhumas - o assunto era sensível e não havia desbloqueador de conversa que servisse. "Ele não se abria connosco mas também nunca deu parte de fraco. Não falhou treinos e sorria. Escondia o que sofria", diz Tiago Gomes, agora futebolista do Belenenses. João Coimbra, ex-Benfica, recorda uma reunião no dia seguinte à morte do senhor Pereira. "Foi terrível, ele ficou muito em baixo."

"Foi um choque para todos, até para os seniores", assume Paulo Madeira. O Especial Mourinho, na altura comum mortal, soube da trágica história e, no fim-de-semana seguinte, em que os encarnados jogavam no Norte, integrou o jovem na comitiva principal e todos os elementos o acarinharam como um filho. E Sílvio, no meio da tristeza, assumiu o sonho de se tornar profissional. Problema: a transição para os seniores.

O lateral deixou-se encantar com promessas de altos voos em Inglaterra, esteve à experiência no Chelsea e no Portsmouth, mas acabou por voltar sem contrato nem clube. "Há quatro anos ninguém sabia quem era, ninguém ligou. Acabou por ir para o Atl. Cacém, depois o Odivelas, subiu para o Rio Ave, está no Sp. Braga mas vai mais longe", destaca Madeira. Sílvio foi pretendido por Jesus e pelo Sporting mas não seria primeira opção. Esperou até ao momento certo, o último Verão. Agora, depois da estreia na Champions, chega a selecção. "A grande alma dele é a avó. Tem um talento nato, mas tudo o que conseguiu é mérito próprio. Trabalhou, trabalhou e conseguiu. E tem potencial para fazer mais", acrescenta.

paz É em Oslo, cidade onde é entregue o Prémio Nobel da Paz, que Agostinho Oliveira quer devolver calma "ao grupo maravilhoso, que vive tudo menos em caos". E é em Oslo, a cidade mais cara do mundo, que Agostinho Oliveira (piloto automático assumido: "Aquilo que viram em Guimarães foi um colega meu aproximar-se para falar comigo mas de imediato lhe pedi que fosse para o banco") quer cobrar a factura da desilusão caseira com Chipre. Para isso o técnico interino (que no último treino em Portugal quase viu partir o autocarro sem ele) chama a atenção para um ponto específico da Noruega: o jogo aéreo. "Teremos de fazer ajustamentos e equilíbrios porque existe preocupação com bolas paradas."

literatura Apesar de falar como número um, Agostinho sabe que é um dois. À condição. "O seleccionador é o Carlos, ainda ninguém disse nada em contrário." Entre as mensagens escritas e as anotações no bloco que utiliza nos treinos, os técnicos que passavam horas na Covilhã a jogar xadrez têm comunicado. "Claro que não intervém tanto, mas não vou deixar de falar com ele", assume Agostinho. Conversas que, a partir de hoje, já envolvem roaming: Queiroz parte para a Noruega do seu bolso - até os ordenados tem congelados e não foi convidado pela Federação para seguir com a comitiva - e, já em terras escandinavas, enviará um SMS a todos os jogadores, como fez antes da partida com Chipre em Guimarães.

física Quem não gostou muito das reacções após o descalabro cipriota foi o sub-capitão, Bruno Alves. Agostinho referiu que a defesa, "um sector por norma competente", não esteve tão bem. Para o "volume de produção ofensiva", variados elogios. "Para mim, quando ganhamos, ganhamos todos, quando perdemos, perdemos todos. Quando ganhamos, o mérito não é só dos avançados, é de toda a equipa...", defendeu o central do Zenit. Em relação ao caso Queiroz, uma garantia - "passa ao lado". "A equipa é a voz de comando, os jogadores fazem esse papel." Todas as equações apresentadas ao ex-portista acabaram com a resposta certa. Tal como com Laurentino Dias, o secretário de Estado do Desporto que decidiu voltar a falar: "Fomos infelizes, podíamos ter ganho. Temos é de ganhar o próximo! Se acho que os casos tiveram influência? Não sou adepto da teoria do achismo..."

medicina Por fim, o prémio do azar que ainda causou o pânico na selecção norueguesa: John Arne Riise, uma das referências da equipa, chocou com um companheiro no último treino e perdeu mesmo a consciência. Após vários exames no hospital, o estado do jogador da Roma melhorou mas Egil Olsen, o seleccionador perito em geografia, cartas e estatísticas, tem de mexer (e muito) na estratégia de jogo.



Veja hoje Noruega-Portugal às 19h30 (RTP1)


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