Entrevista

"Tomara que todo o governo fosse tão honesto como Felgueiras"

Publicado em 06 de Junho de 2009   
A autarca fala da sua vida, de Felgueiras e do PS. E garante que ainda é amiga de Sócrates
Opções
a- / a+

Há qualquer coisa de "Maria de Fontismo com as pistolas na mão" nesta mulher minhota que fugiu para o Brasil na iminência da prisão preventiva, regressou, candidatou-se à presidência da câmara e venceu. Passou boa parte do mandato na sala de audiências do tribunal de onde saiu com um sorriso vitorioso por não ter sido condenada por corrupção. Os três anos e meio de pena suspensa, por abuso de poder, considerou-os "uma vitória" e vai recorrer. Recebe o i na Câmara de Felgueiras. Antes, no gabinete do cidadão instalado no rés-do-chão, estaciona durante algum tempo para o contacto face-a-face com o eleitorado.

Já anunciou a sua recandidatura?
Ninguém tem dúvidas de que eu vou ser candidata. Felgueiras não aceitaria voltar a um acto eleitoral sem me ter como alternativa, como não aceitou há quatro anos. Agora, o panorama político ainda é mais exigente.

Está a falar de quem?
De ninguém em particular, tudo em geral. A minha candidatura será, naturalmente, uma candidatura independente.

Gostaria de voltar ao PS?
Sou socialista de coração e alma, não preciso de cartão. Sou socialista de princípios, cresci assim. Sou muito mais socialista do que outros que têm cartão. Adoraria que Portugal tivesse, em todas as estruturas partidárias, militantes fortes. Lamento é a inexistência de lideranças fortes, de um debate político que não se perdesse em fait-divers.

Fátima Felgueiras e José Sócrates foram amigos....
Somos amigos! Eu não perdi nenhum amigo. Tenho amigos dentro do partido em todos os sectores. Não deixarei de ser amiga por não ter cartão. Continuo a ser a mesma pessoa com os meus amigos, tenho a mesma postura, independentemente daquela que é a minha condição de participação activa na vida política.

Tem falado com José Sócrates?
Falo todas as vezes que tenho de falar, com toda a comunicação social a fazer distorções dos momentos em que temos de estar. Naturalmente, José Sócrates é o nosso primeiro-ministro. Há uma relação institucional que nos põe em várias situações... É absolutamente normal.

E a amizade pessoal?
As minhas amizades pessoais mantenho-as e preservo-as, com enorme carinho. Não façamos confusões numa coisa: deixei de ser dirigente nacional do PS. A minha participação na vida político-partidária do PS não existe.

José Sócrates é um líder forte?
É a única liderança forte no momento.

Vai votar nele?
O voto é secreto.

Ficou magoada com o PS quando a tentou expulsar?
Reprovo veementemente a atitude de alguns responsáveis do PS, ao tempo que tomaram decisões profundamente erradas e inadmissíveis em relação a Felgueiras e a mim própria - estou a falar de Ferro Rodrigues, de Francisco Assis - que resultaram em atitudes nada coerentes, como se verificou depois na postura em relação a Paulo Pedroso.

Sócrates deu-lhe apoio?
A maioria generalizada do PS, e das pessoas de bem dos diferentes partidos, não se reviu naquilo que foi a atitude do PS e dos outros partidos, de claro aproveitamento perverso de uma situação exclusivamente política que pôs a nu um conjunto de fragilidades da vida política nacional. Foi um processo exclusivamente de ordem política. Hoje, em termos partidários, existe uma postura de muita gente que é movida por interesses e não mede meios para atingir fins. Lançam mão a tudo o que é perverso na vida social e política.

Nomeadamente...
Hoje as pessoas olham para a quebra do segredo de justiça de uma forma diferente do que olhavam há seis anos. E ninguém tem dúvidas de que a quebra do segredo de justiça é um método utilizado por agentes da própria investigação. Ninguém é punido! Tomara ao país que todo o seu governo, em todos os seus patamares, fosse tão sério, tão honesto, tão correcto e tão legal como o governo de Felgueiras. Felgueiras pode servir de exemplo para todos os outros.

Mas foi condenada a três anos...
Não me sinto condenada. O tribunal disse claramente que, em Felgueiras, nunca existiu corrupção. Há muita gente que diz, todos os dias, que a justiça não funciona, mas a verdade é que não funciona segundo os seus interesses. Quem duvida da justiça desta forma, não respeita a justiça como pilar do sistema democrático. O processo de Felgueiras foi provocado exclusiva e deliberadamente por pressões, condicionamentos, métodos perversos...

Por quem?
Por todos.

Mas esse é o problema da justiça em Portugal. A discussão é quase sempre genérica...
O grande problema é que toda a gente opina, toda a gente discute... Mas, na minha opinião, opina-se porque é politicamente interessante. Mas todos, todos estão a dar uma ajuda para que nada se corrija.

Na altura interessava a quem? Ao PS, ao PSD?
Toda a gente se aproveitou.

Mas qual era o interesse do PS? Tinha uma câmara segura em Felgueiras. Qual era o interesse?
O PS de Ferro Rodrigues tinha uma linha de orientação na qual eu não me revia. Errou. Entreguei o meu cartão de militante quando aceitei ser candidata independente a Felgueiras.

O seu processo judicial acabou por não ter qualquer influência no resultado eleitoral em Felgueiras. Acredita que o mesmo possa acontecer a José Sócrates? Ou o caso Freeport terá, necessariamente, consequências no plano eleitoral?
Só vejo uma semelhança: a forma como o inquérito do Freeport surgiu - assim como aconteceu com o inquérito de Felgueiras - é perversa. Trata-se de um processo com intenções políticas. E o processo Felgueiras só é judicial porque os interesses políticos o remeteram para a justiça.

Mas é o financiamento dos partidos e a utilização de verbas camarárias que estão por trás da acusação do Ministério Público...
É imprescindível uma lei clara no financiamento dos partidos. Sem haver essa clareza, fica aberto o espaço para que qualquer criminoso que não obtenha os favores que quer crie confusão. Hoje, quem queira corromper e não seja bem sucedido, escreve uma carta anónima. É este espaço que é preciso eliminar. A lei do financiamento, mesmo agora, não é assim tão transparente. E não é só em Felgueiras, mas também noutros sítios. As cartas anónimas passaram a ser um método utilizado por todos. E cartas anónimas só as escreve quem não tem coragem e mente.

No financiamento partidário, isso passa por?
Não estou no Parlamento, não penso em leis, não tenho sequer tempo para perder com isso. Deve haver muita serenidade na ratificação das leis, na sua correcção. Mesmo no que tem a ver com a lei do financiamento dos partidos, não tenho outra opinião senão a de carácter geral. O que é preciso é que seja uma lei que permita apreciações transparentes e claras. Tem de haver transparência total.

É muitas vezes comparada a outros autarcas que são alvo de processos judiciais. Isaltino Morais, Valentim Loureiro, Avelino Ferreira Torres...
Não há comparação possível. Falo do meu caso. O caso de Felgueiras é exclusivamente um caso político - como o tempo irá provar, aliás. Nunca existiu nada do que construíram.

Há um ponto comum: são todos presidentes de câmaras - que são reeleitos com uma larga base popular. Deve ser esse o modelo? O presidente de câmara deve responder primeiro a quem o elegeu e só mais tarde à justiça que o acusa?
Os processos só existem com um interesse claro: o de assalto ao poder. E o processo em Felgueiras é de intenção política, de assalto ao poder. O único ponto comum é que são presidentes de câmaras. E os presidentes de câmaras, na linha política, são o elo mais fraco dentro do sistema.

Mais fraco?
Na política nacional temos um governo nacional - não temos regional, porque andámos a brincar às regionalizações - e temos depois o governo local. É o primeiro, o mais pequeno. Há muito interesse em desviar atenções para os meios mais pequenos.

Se fosse convidada, voltaria ao PS?
Não equaciono esse cenário. Não preciso de cartão. O meu cartão é o meu desempenho por causas. Não preciso disso para ter intervenção.

É amiga de José Sócrates e de muitos responsáveis actualmente no governo. Também tem repetido que é uma mulher de causas. Não tinha interesse em levá-las a outro nível?
Neste momento, este é o meu patamar. Este é o meu espaço.

E se um dia tivesse de optar entre Felgueiras e um cargo nacional...
Mas não tenho. A vida cria-nos sempre oportunidades. Em política, ouve-se sempre: nunca digas nunca. Na vida, nunca se diz nunca. Tudo depende da oportunidade. Mas neste momento só tenho a ambição de prosseguir o meu trabalho em Felgueiras.

Conhece bem o primeiro-ministro. Se as actuais sondagens se confirmarem e o PS perder a maioria absoluta, acha que ele conseguirá ser um líder forte - sendo obrigado a recorrer a outros partidos para governar?
A maturidade da nossa democracia devia estar preocupada em que um governo democraticamente eleito tenha condições para governar. Tem de haver a possibilidade de criar consensos e de prolongar as políticas. O país precisa de líderes fortes, com disponibilidade para construir. Há um momento para nos unirmos. Quem governa tem de gerar consensos.

Mas não respondeu à pergunta: pelo que conhece de José Sócrates, acha que ele governará em maioria relativa? Ou preferirá retirar-se e deixar o espaço a outros?
Pelo que conheço, é um homem determinado. Muitas vezes confunde-se autoritarismo com autoridade, mas vejo no primeiro-ministro essa capacidade para gerar consensos.

E deve procurá-los onde: à direita ou à esquerda?
O PS deve sempre direccionar-se para resolver os problemas do país, independentemente de onde poderá encontrar consensos.

Permitindo um governo de bloco central?
Tanto me faz. O que é preciso é uma atitude, uma disponibilidade diferente.

É uma solução para o PS, ter alguém como Manuel Alegre - que é, de certa forma, um movimento dentro do partido? O risco de desagregação não é grande?
É um risco que existe em todos os partidos. Hoje olhamos para os partidos políticos e percebemos que estão cheios de facções. Deixou de haver "a causa" - ou as causas - e passa a existir o interesse desta ou daquela facção. A linha do Manuel Alegre é uma linha respeitável, é uma mais-valia dentro do PS, é uma linha de ordem política com que o PS também tem de contar.

Quando olha para a "facção" de Manuel Alegre, considera que estão em causa interesses próprios ou os interesses mais altos do partido?
[Silêncio] Quando cada um se liga a uma instituição, tem de contribuir para que as causas e os interesses partidários sejam aqueles com que os partidos contribuam para o governo nacional. Manuel Alegre é apenas um caso. A vida partidária - de todos os partidos - tem de ser profundamente alterada. Os portugueses estão cada vez mais afastados da política. E isso tem de mudar.

 

Alguma vez se arrependeu de ter fugido para o Brasil?

Pergunto: conhece alguém que, nas mesmas circunstâncias e na mesma oportunidade, tivesse feito diferente?

 

Quais foram as circunstâncias? Tinha conhecimento da acusação e decidiu sair de Portugal?
Não tinha conhecimento de nenhuma decisão quando saí de Portugal. Aliás, não queria falar sobre justiça e também não quero ser o elemento que contribua para a confusão e o desrespeito em que vejo hoje a justiça. Nós precisamos de acreditar na justiça e todos os que têm responsabilidade têm a obrigação de criar condições para que as pessoas acreditem. Senão, estaremos perdidos.

 

Na altura, não acreditou na justiça...

Não ponha a questão assim. Eu tenho de acreditar na justiça. Não concordo nem aceito é com todos aqueles que, por desrespeito à justiça, a põem num patamar que cria situações de desconfiança - quando essa desconfiança deve ser dirigida a todos os que a põem em causa. Nas investigações, acontecem permanentemente quebras do segredo de justiça.

 

Como é que decidiu sair do país? Teve de saber de alguma coisa, para ter decidido.

Nunca me passou pela cabeça. Aliás, julgo que não passa pela cabeça de ninguém. De acordo com a apreciação que fazia e faço hoje da lei, que um tribunal que não é de primeira instância, pudesse ter agravado uma medida de coacção, não devia ter acontecido. Estou a falar do agravamento de uma medida de coação que de todo era - e é - despropositada. Para quê? Para quê?! O único tribunal de primeira instância que me ouviu, entendeu que não havia nenhuma justificação. Foi um abuso. Tanto mais que hoje o próprio tribunal confirma que tudo o que alimentou este mediático processo não existiu nunca. As circunstâncias em que fui, pergunto-lhe quem não teria feito a mesma coisa. Não tinha pensado ir a lado nenhum, estava em Felgueiras, naturalmente. Ouvia aquilo que a comunicação social dizia e alguns dos elementos da comunicação social que, tendo o meu telefone, me diziam: "Olhe que o que passa nos corredores do tribunal é isto..."

São decisões que se tomam na hora e que acontecem porque têm de acontecer, porque é justo que aconteçam. E graças a Deus tive a oportunidade de tomar essa decisão no momento imediato.

 

Alguma vez se arrependeu?

Não. Voltava a fazer exactamente o mesmo. Não me arrependo de nada do que fiz, de nenhum acto enquanto presidente da câmara. Tenho pena, às vezes, de não ter tido maior sucesso ou facilidade nas causas que defendo. De resto, não tenho nenhum motivo para me arrepender. Tenho a certeza absoluta e não aceito as considerações que vejo fazer sobre Felgueiras e os felgueirenses. São a melhor gente que existe.

 

Como é que conseguiu viver tanto tempo afastada de Felgueiras?

Acha que vivi afastada? Hoje, perguntam-me muitas vezes... Isto é tudo muito violento e os que têm responsabilidade neste processo também devem fazer um exercício de consciência, porque o que eu espero é que não voltem a fazer a ninguém - e infelizmente têm-no feito - o que me fizeram a mim. A mim, a Felgueiras, à minha família, aos felgueirenses. O mal, a dor que me fizeram passar a mim, à minha família - que por atacado, sofreu e alterou a sua vida por completo, sem ter nenhuma culpa... Não há nenhuma razão para assim acontecer. É uma dor que não a desejo a ninguém. E porque não a desejo a ninguém eu não quebro, não fico quieta à espera que não me volte a acontecer. Não fico à espera que não aconteça também aos outros e que, portanto, corrijam. Alteraram profundamente a minha vida pessoal e familiar, que foi violentada injustamente de uma forma que é melhor nem pensar. Aliás, tento pôr uma pedra por cima destas coisas más e nem gosto de falar delas; procuro esquecê-las.

 

O seu filho ainda continua no Brasil...

Sim, e não quer vir para Portugal. Vem cá de vez em quando, mas do ponto de vista psicológico, a dor é tão forte que ele não consegue fazer o exercício que eu consigo fazer, de deixar a pedra a tapar o mal que lhe fizeram. E não foram os felgueirenses, foram todos os aproveitadores que contribuíram para uma invenção maldosa, perversa e que é absolutamente injusta. Mas o que é verdade é que o meu filho, de 25 anos, está hoje a viver no Brasil, sozinho. Contacto com ele todos os dias na internet, mas é uma dor que não desejo a ninguém, sobretudo pelas circunstâncias em que isto acontece. Para não falar da minha filha também e daquilo que, ao longo deste tempo, tem sofrido. E toda a minha família. Não é possível descrever toda esta dor.

 

O procurador Lopes da Mota é seu amigo. Como tem acompanhado a polémica em torno das alegadas pressões sobre magistrados no caso Freeport?

Não convivo com o procurador Lopes da Mota há muitos anos. Primeiro, porque foi trabalhar para Lisboa, depois para fora do país. Lopes da Mota foi procurador em Felgueiras durante anos, trabalhou comigo e as nossas relações de amizade são de anos. É uma pessoa de uma integridade intocável e acho lamentável tudo o que vai acontecendo. Mas sobre isso não quero falar.

 

Face às suspeitas que têm sido levantadas, Lopes da Mota já devia ter abandonado o Eurojust para clarificar a situação?

Acho que alguns têm interesse em desviar atenções para alimentar o caso Freeport, da mesma forma que tentaram desviar atenções no caso Felgueiras. É preciso criar condições para que a justiça decida com base em factos, que deixe de haver equívocos e que seja punido quem deve ser. Hoje, o caso Eurojust é uma enorme confusão. É preciso tempo para que tudo se clarifique.

 

 



Qual a sua reacção:
Tem mais informações sobre esta notícia?
Conte a sua história. Seja um iRepórter.

Notícia relacionada

Close