ETA vai baixar as armas. Será que à terceira é de vez? - vídeo
por Sara Sanz Pinto, Publicado em 06 de Setembro de 2010
A organização separatista basca anunciou que "não vai levar a cabo acções armadas ofensivas" na luta pela independência. Num vídeo enviado ontem à BBC, o grupo terrorista garantiu já ter tomado esta decisão "há meses" e apelou à "responsabilidade" dos agentes políticos, sociais e sindicais bascos. "No seu compromisso com um processo democrático, para decidir livre e democraticamente o nosso futuro, através de diálogo e negociações, a ETA está preparada, hoje como ontem, para concordar com as condições democráticas mínimas necessárias para pôr em marcha um processo democrático, se o governo de Espanha tiver vontade", disse, no vídeo, uma porta-voz do grupo.
O governo espanhol, que sempre disse que só negociaria com a ETA depois de o grupo renunciar à luta armada, ainda não se pronunciou oficialmente. Porém, o governo autónomo basco considera esta declaração de cessar--fogo "insuficiente", "ambígua" e "enganadora". Responsável por mais de 820 mortes nos últimos 40 anos, não é a primeira vez que a organização desiste temporariamente da violência. Dois cessar-fogo já tinham sido anunciados no passado - e quebrados mais tarde. O último foi assinado a 22 de Março de 2006 e durou apenas nove meses.
A mensagem é, assim, vista como vaga e inconclusiva, já que em nenhum momento é dito se a decisão é definitiva. Apenas é comunicado que a ETA não vai fazer mais atentados, pelo que se teme que esquemas de extorsão e rearmamento sejam perpetuados. O cenário que acompanha o comunicado deixa dúvidas mesmo a quem quer acreditar num cessar-fogo definitivo: três figuras encapuzadas, trajadas de negro e com o símbolo da organização visível na parede atrás e no vestuário. Uma serpente em torno de um machado e com a expressão "Bietan jarrai" - que significa "seguir nas duas frentes", ou seja, na luta política e militar.
A parte inicial do discurso, lido pela figura feminina ao centro, revela uma tentativa de justificar a luta armada e apela "a todos os cidadãos para que continuem o combate", para que juntos possam destruir o muro de negação e avançar irreversivelmente no caminho para a liberdade.
Dúvidas "Uma estratégia do núcleo duro da organização" para se infiltrar nas eleições municipais e provinciais de 2011." Foi assim que, há dias, o Partido Popular espanhol interpretou uma eventual trégua da ETA, quando já circulavam rumores de um possível cessar-fogo. As dúvidas também pairam sobre o governo espanhol, com o ministro do Interior Alfredo Pérez Rubalcaba a sublinhar que se mantém "céptico" face ao anúncio. "A única coisa que sabemos é que a ETA não está disposta a abandonar a luta armada", acrescentou mesmo.
Segundo fontes citadas pelo jornal espanhol "El Mundo", Zapatero terá dito que o gesto lhe soube a muito pouco. "Esta informação é insuficiente porque eles falam em cessar-fogo, em processo democrático, mas nada dizem sobre baixar as armas ou algo definitivo. Por isso, eu seria muito cautelosa, estaria muito atenta a avaliar a dimensão deste anúncio", concorda Barbara Duhrkop, socialista e antiga deputada do Parlamento Europeu, cujo marido, Enrique Casas, foi assassinado pela organização basca em 1984.
Há porém quem veja neste vídeo um sinal inequívoco de boa vontade. "Penso que é um grande e positivo passo" disse à BBC o director-adjunto do jornal basco "Gara", que recebeu o vídeo pouco depois da BBC. "Penso que era por isto que a maioria da sociedade basca ansiava ou estava à espera e nesse sentido penso que ninguém pode dizer que é negativo", acrescentou Njaki Soto, sublinhando porém que há ainda "um longo caminho a percorrer".
Os polícias Carlos Garcia, de 28 anos, e Diego Salvá Lezaun, de 27, foram as últimas vítimas da ETA em solo espanhol. Desde 31 de Julho que a organização terrorista não mata em Espanha.
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