Jerónimo promete PCP na rua contra a cimeira da NATO em Lisboa
por Sónia Cerdeira , Publicado em 06 de Setembro de 2010
Outra "cimeira da guerra" para o PCP: "Barroso será substituído por Sócrates"
"Paz sim! NATO não!" Os gritos dos militantes comunistas contra a cimeira da NATO, que vai ser realizada a 19 e 20 de Novembro em Lisboa, foram ontem prometidos pelo secretário-geral do PCP, Jerónimo de Sousa, no encerramento da Festa do Avante. "Ao reunirem-se em Lisboa em mais um exercício de hipocrisia visando novas ameaças à paz mundial, terão na Avenida da Liberdade, que da Liberdade tem nome, todos aqueles que não se conformam, não se resignam, lutam verdadeiramente pela paz e a co-operação entre os povos e que vão gritar "Paz sim! NATO não!" Jerónimo de Sousa prometeu uma manifestação e comparou mesmo esta Cimeira à "cimeira da guerra das Lajes", onde "Barroso será substituído por Sócrates": "E essa imagem do primeiro-ministro, secretário-geral do PS, anfitrião da cimeira da NATO em Portugal, ficará para a história como a mais sublime prova do seguidismo e participação política externa do governo do PS nos projectos do imperialismo mundial".
O secretário-geral do PCP acusou o presidente dos EUA, Barack Obama, de prosseguir "a guerra das estrelas" de Reagan e Bush e a "hipocrisia dos EUA e NATO relativamente à questão nuclear", apoiando "incondicionalmente" Israel, "a única potência nuclear no Médio Oriente". Jerónimo de Sousa recordou as "promessas esfarrapadas da paz mundial e fim do unilateralismo", lembrando que ainda estão 50 mil soldados no Iraque "por tempo indeterminado" e subsiste a "chacina no Afeganistão". "O mundo ia mudar, dizia-se", ironizou.
Ao povo libanês e palestiniano foi demonstrada a solidariedade dos comunistas portugueses, bem como à "Venezuela Bolivariana" e à "Cuba Socialista a quem saudamos muito calorosamente afirmando deste comício que podem contar connosco", garantiu Jerónimo.
A política internacional concretiza-se em Portugal pela mão de PS, PSD e CDS-PP, que "têm conduzido o país para a grave situação de crise económica e social em que Portugal se encontra" e "estão a conduzir a nova escalada ofensiva, a coberto de fingidas zangas e encenadas divergências".
Uma agenda política que impõe sacrifícios aos trabalhadores mas que o PCP, garante Jerónimo, não vai ficar a olhar sem dar luta. E essa luta trava-se já no Orçamento do Estado 2011: "É preciso continuar a exigir a anulação das medidas de austeridade contra os trabalhadores e o povo. Travar a ofensiva do PEC e a sua concretização através do Orçamento do Estado para 2011. Um Orçamento marcado pela suicida e inaceitável decisão da antecipação do calendário da redução do défice. Um Orçamento assim só pode ter o nosso mais firme combate com denúncia e propostas".
Jerónimo de Sousa anunciou um conjunto de iniciativas, como "a revogação já no próximo Orçamento da taxação adicional do IRS", o aumento do salário mínimo até 600 euros em 2013, o alargamento do acesso ao subsídio de desemprego e um aumento salarial na função pública para "compensar parte do poder de compra perdido nos últimos dez anos". Portugal "precisa de criar riqueza", Jerónimo de Sousa dixit. E para isso os comunistas vão avançar com uma campanha em defesa da produção nacional - "Portugal a produzir.".
"Dizia ontem José Sócrates que quem não aprovar o Orçamento está a contribuir para a desestabilização governativa. Pois fique sabendo, não aceitamos que a instabilidade social e as injustiças sejam sacrificadas em nome da salvação da estabilidade governativa de Portugal", alertou Jerónimo.
PS e PSD foram actores este Verão de "uma crise política encenada". "À volta do Orçamento para 2011 temos assistido a uma espécie de jogos florais de Verão entre PS e PSD, onde cada um mostrou os seus dotes criativos na arte dramática, da dissimulação e da pantomima. Encenaram uma crise política, para melhor camuflar as suas conivências, os seus acordos, as suas responsabilidades e disfarçar a identidade das suas políticas e manter aberta a via do rotativismo".
A proposta de revisão constitucional do PSD foi mais uma vez criticada. Apesar de considerar o PSD "mais trauliteiro", porque fez a proposta, o secretário-geral não absolve os socialistas, já que essas "alterações muito negativas da dimensão económica e social da Constituição estão em curso pela acção governativa do PS. O PS vai fazendo no governo o que o PSD quer pôr na Constituição".
O processo Casa Pia foi lembrado como um bom exemplo da Justiça portuguesa: "Temos denunciado a Justiça da ''malha larga'' para os poderosos, a impunidade de que gozam os processos onde reinam as prescrições, o arquivamento e as penas irrelevantes, em resultado das campanhas, das medidas legislativas, dos compromissos do poder, do cerco e das pressões a que, como temo visto, estão sujeitos os tribunais e os magistrados. [...] Mas também é justo reconhecer que no caso Casa Pia foi feita justiça ao fim destes longos anos, o que é bom para a Justiça e sobretudo para as vítimas deste processo que viram condenados como criminosos os seus agressores."
O candidato presidencial do PCP, Francisco Lopes, estava entre as delegações internacionais e a direcção do partido que partilharam o palco com o secretário-geral. "Uma candidatura empenhada na denúncia da prática negativa do actual Presidente da República e na contribuição para a derrota do candidato da direita."
Num discurso de quase uma hora, não faltou tempo para Jerónimo de Sousa criticar a Lei de Financiamento dos Partidos, aprovada com o entendimento do PS, PSD e CDS, que, diz, quer "colide com princípios constitucionais".
A Festa do Avante é a principal "vítima" da nova lei, por ser um espaço para a recolha de donativos para o partido. "O PCP vai continuar a defender e a exigir a transparência em matéria de financiamento partidário, mas as regras de transparência não podem ser confundidas com ingerência na liberdade de organização de cada partido. Vamos continuar a propor que tais entorses da lei sejam corrigidas, mas não pensem que por esta via acabam com a Festa do Avante ou com a independência do PCP", disse Jerónimo.
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