Portugal vai jogar com a Noruega amanhã em Oslo com um capitão ausente, um seleccionador agarrado ao lugar, um interino que não pilota, um presidente que não decide, um vice-presidente que processa, um secretário de Estado que interfere, um médico que agita, dois treinadores que aguardam, etc... Esqueçam os defesas, os médios ou os avançados: a selecção nacional é o espelho da falta de vergonha do futebol português. Chipre (63.o do ranking FIFA) marcou quatro golos a Portugal (8.o da FIFA) na simbólica cidade de Guimarães, quantos fará a Noruega (22.o) em casa?
1 RONALDO. A culpa pode ser do tornozelo mas o capitão de Portugal, cujos feitos mais relevantes na selecção nos últimos anos foram o "assim não dá, Carlos!", disparado durante o Portugal-Espanha para o banco, e o "querem explicações? Perguntem ao Queiroz" no final do mesmo jogo, não disse uma palavra nem a favor, nem contra o seleccionador durante este período. Ronaldo está mais preocupado com o Real Madrid: ele sabe que é pela via do colosso espanhol, e mais nenhuma, que os troféus colectivos e, por consequência, individuais que persegue podem chegar. Não vai jogar em Oslo mas está omnipresente.
2 QUARESMA. De repente, está nos pés de um dos proscritos de Queiroz na África do Sul (e segunda escolha, em substituição do CR7 para esta dupla operação) o futuro da equipa técnica. Apesar da gritante falta de capacidade para liderar uma equipa, é o extremo do Besiktas o mais talentoso e decisivo jogador às "ordens" de Agostinho Oliveira. Um momento de inspiração do Mustang pode salvar as incontáveis incompetências da FPF, de Queiroz e afins.
3 SIMÃO. Segundo o seleccionador, despediu-se através de uma carta ajudada a redigir pelo próprio Queiroz. O certo é que, com 30 anos, deixa a selecção por "razões de ordem pessoal", o argumento ideal para evitar perguntas. A seguir, foi a vez de Paulo Ferreira (31 anos) se retirar, já depois de saber que não seria convocado. O que Simão e Paulo Ferreira disseram, no fundo, é que não acreditam nem na FPF nem no seleccionador. Mesmo a ver Portugal na TV pairam sobre Queiroz e Madaíl neste apuramento.
4 LUÍS HORTA. É daquelas figuras que, salvo notícia de controlo antidoping positivo ou interesse humorístico, nunca deveriam aparecer na televisão, muito menos associadas à selecção: o seu trabalho só ganha com a discrição. É certo que foi vítima indirecta de (mais) um desvario verbal do seleccionador mas devia preocupar-se também com os médicos de cristal que chefia - um deles não cumprir a sua função por causa da ordinarice de Queiroz parece piada.
5 GILBERTO MADAÍL Está solidário com Queiroz, Laurentino, Luís Horta, Amândio de Carvalho, Deus, o Diabo e quem lhe falar com voz grossa. No pós-Luiz Felipe Scolari, ficaram a descoberto a incompetência e a falta de liderança históricas do ainda presidente da FPF. Em cada golo que Portugal sofre, há qualquer coisa de um homem que passou a vida a sofrer golos.
6 PAULO BENTO. É uma solução que pode apresentar resultados desportivos rápidos - porque conhece bem os jogadores - e financeiros interessantes - porque aceitaria o cargo por um terço do ordenado de Queiroz. Admirado pela gente do futebol, é rejeitado por largas faixas da opinião pública. Estará atento aos sinais que saírem do jogo da Noruega.
7 LUIS ARAGONÉS. Bento é a solução mais prática e barata, Aragonés a mais prestigiada e cara. Anda a oferecer-se para a selecção há meses e, se Queiroz sair com justa causa, pode ter um presente ainda antes do Natal - porque nesse caso haveria dinheiro para investir no técnico campeão europeu. Só não vai à Noruega a expensas próprias porque, ao contrário de Queiroz,acha que não é a altura certa para aparecer nas fotografias.
8 AGOSTINHO OLIVEIRA. O homem que ficou encantado com a produção atacante de Portugal no 4-4 (!!!) com Chipre dá a cara pela selecção actual: um grupo de jogadores desgarrados, mal escolhidos, sem rei nem roque, e que se calhar gostariam de estar no lugar dos aliviados Simão e Paulo Ferreira.
9 CARLOS QUEIROZ. Está no meio de tudo e pouco (ou nada) pode fazer. Foi castigado por duas instâncias diferentes, tem mais um processo a decorrer mas, qual lapa, não sai da selecção por mais polvos que lhe apareçam. E a questão nem é o dinheiro, é "a reputação, a honra e o prestígio", não entendendo que a cada dia que passa vai perdendo uma, e outra e mais outra. Impedido de treinar até Março, diz que tem a solidariedade da estrutura mas nem sequer foi convidado a viajar no avião da equipa. O banco de suplentes passou a ser o banco dos réus e assim será mais uns tempos.
10 LAURENTINO DIAS. A política chegou ao futebol e o futebol (neste caso, o português) rendeu-se à política (ou às politiquices). Depois de ter denunciado "factos graves" ocorridos num controlo anti-doping, decidiu defender-se dos ataques de Queiroz na véspera do primeiro jogo de Portugal na qualificação para o Europeu e, sem o invocar directamente, pediu o afastamento do seleccionador. Para a ADoP e a FPF sobram só uns elogios.
11 AMÂNDIO CARVALHO. A cabeça do polvo que processou o seleccionador depois de lhe ter dito que não tinha a sua confiança antes de um jogo decisivo (Bósnia) continua em funções numa odisseia que começou na década de 80 e já teve outros episódios tristes como Saltillo.




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