Póquer

European Poker Tour. Em busca do prémio mais desejado de Vilamoura

por Rui Catalão, Publicado em 04 de Setembro de 2010   
Eram 384 jogadores, mas só um levou os 467 mil euros do prémio final. O i esteve lá para acompanhar a semana em que Vilamoura foi capital do póquer
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Enquanto o sol e o calor dominam o Verão algarvio, dezenas de jogadores de póquer juntam-se à entrada do Casino de Vilamoura. Vêm para mais uma etapa do European Poker Tour, que passa pelo segundo ano pelo nosso país. Para participar, cada um pagou 5300 euros, sem contar com estadia, alimentação e outras despesas.

Quando o relógio chega ao meio-dia, as portas do Salão Miralago abrem-se e cada um ocupa o lugar que lhe foi atribuído. Nessa altura, já é possível testemunhar a diversidade de jogadores que frequentam estes torneios - homens e mulheres, jovens e velhos, gordos e magros, com bom e mau aspecto. A experiência no póquer também varia: uns aprenderam a jogar na internet; outros construíram a sabedoria nos casinos ou nos encontros entre amigos.

O som das fichas invade então a sala. Durante uns minutos, até incomoda. Mas depois torna-se um hábito. Até porque é raro o jogador que não brinca com um montinho de fichas enquanto pondera as suas decisões. Os truques chegam quase a rivalizar com a forma como alguns dealers distribuem as cartas. Na verdade, todos são artistas. Mas ali só os dealers têm rendimento garantido. Os jogadores ainda têm um longo caminho pela frente até alcançar o lucro.

As inscrições fecham e a organização divulga os números oficiais: 384 inscritos, 1,8 milhões de euros em prémios e quase 500 mil euros para o vencedor. Ao todo, seriam 56 os jogadores a sair dali com mais dinheiro nos bolsos.

O palco, transformado em bancada de imprensa, está cheio de mesas e computadores. Durante o torneio, há um constante vaivém de jornalistas entre essa zona e as mesas de jogo. Observam as mãos mais importantes - com mais fichas envolvidas -, tomam notas e regressam ao lugar para escrever e publicar. Sobretudo quando há jogadores eliminados.

Nos primeiros dois dias (que na verdade correspondiam a um só), vão logo embora umas dezenas. Entre eles está Daniel Negreanu, um dos melhores jogadores da actualidade. O canadiano de origem romena passou poucas horas na mesa de jogo. Mas viria mais tarde a ganhar um torneio paralelo, que juntava golfe e póquer numa só competição. Nos greens, Negreanu foi um desastre, ao contrário do ex-futebolista Teddy Sheringham, por exemplo. Mas de volta à mesa acabou por compensar a semana em Vilamoura com uma vitória.

As expectativas quanto a um bom resultado entre os jogadores portugueses eram grandes, uma vez que António Matias tinha saído vencedor da primeira edição disputada em Portugal. Até houve quem viesse a conseguir bons resultados, mas o gestor de 55 anos - que confessara logo na conferência de imprensa de lançamento ter "0% de probabilidades de revalidar o título" - acabaria por não chegar longe.

DEMOCRACIA Na entrevista ao i, Victoria Coren disse que uma das grandes virtudes do póquer é a abertura a qualquer pessoa, seja qual for a sua origem. "Desde que tenha dinheiro para pagar a entrada no torneio, qualquer um pode chegar aqui e defrontar os melhores jogadores de póquer do mundo. Mas é impensável, por exemplo, eu dizer que quero defrontar a selecção brasileira de futebol e fazê-lo mesmo." E de repente, na segunda-feira, as palavras da jogadora britânica (que também é jornalista, escritora e apresentadora de televisão) passam a fazer ainda mais sentido. É quando chegamos ao pé de uma das mesas e encontramos a vocalista dos Santamaria, Filipa Lemos, e o manequim Pedro Guedes junto a John Duthie, o criador do European Poker Tour. A curiosa mistura desfaz-se pouco depois, quando Guedes elimina Duthie da competição. Já Filipa Lemos viria mais tarde a partilhar a mesa de jogo com Teddy Sheringham.

REBENTA A BOLHA O primeiro momento de grande tensão no torneio de Vilamoura acontece quando se aproxima um número mágico. É terça-feira: restam cerca de 75 jogadores e ninguém quer perder a oportunidade de ficar entre os 56 primeiros, aqueles que levarão pelo menos 7263 euros para casa. Os cuidados redobram-se: as apostas passam a ser mais baixas e o tempo gasto para tomar uma decisão aumenta. Ninguém quer morrer na praia e ser a bubble (ou bolha) - nome dado ao último jogador que sai sem receber dinheiro. Mas as eliminações continuam a acontecer.

Às tantas, chega o momento por que todos ansiavam: o 57.º jogador é eliminado. Ouvem--se gritos de alegria. Há também quem abrace o jogador do lado. Afinal, a primeira missão estava cumprida. Também é fácil perceber que há gente a respirar de alívio, porque já estava no limite. É o caso do português Nuno "Zumy" Coelho. Com poucas fichas na mão, aguentou-se e já tem um prémio garantido. Seria ele, pouco depois, um dos seguintes a ficar pelo caminho.

MESA FINAL A garantia de encaixe financeiro abre a porta a outros riscos. Os all-in''s (decisão de apostar todas as fichas) sucedem-se. Há quem consiga duplicar as fichas, mas também são muitos os que ficam pelo caminho. E no dia seguinte ficam conhecidos os nove finalistas. O holandês Erik van der Berg, que se dava nas vistas por usar um gorro laranja, despede-se pouco depois.

Num instante chegamos à quinta-feira de todas as decisões. Chegam as 12h30: Thomas Kremser, director de torneios do European Poker Tour, diz ao dealer as palavras que abrem o último dia de prova: "Shuffle up and deal" ("baralhe e dê as cartas").

Entre os oito magníficos há ainda um português. Só que Sérgio Coutinho também não resiste à concorrência e ao fim de uma hora é a sua vez de abandonar o torneio. Ainda assim, o oitavo lugar rende-lhe mais de 37 mil euros.

Um a um, os finalistas vão caindo. Até ao duelo final, a saída de Sheringham (quinto classificado) é a mais aplaudida pelo público presente. O gentleman retribui com um sorriso e abandona o salão. Seguem-se Sam Trickett e Jason Lee, o que reduz o lote de candidatos à vitória ao inglês Toby Lewis e ao sueco Martin Jacobson.

A partir daqui, é um verdadeiro jogo de paciência. Enquanto Lewis mantém uma cara inexpressiva, Jacobson transparece maior nervosismo. Mas o contraste não fica por aí. À volta, são os apoiantes do jovem Toby que fazem a festa: "C''mooooooon, Toby! C''mon!" O sueco, por outro lado, tinha apenas um amigo a apoiá-lo. E a certa altura começa a perder fichas atrás de fichas. Até que atinge um ponto em que decide arriscar tudo: "Vou fazer all-in." Junta-se toda a gente à volta da mesa para conhecer o desfecho, mas o torneio não ficaria por aí. Martin Jacobson vence a jogada e duplica as fichas.

A noite já caía sobre Vilamoura quando o momento de suspense se repete: Jacobson volta a avançar os montes de fichas e desta vez perde mesmo. Toby Lewis levanta-se, mas mal tem tempo de comemorar. É de imediato engolido pelo grupo que o acompanha. Assim que se recompõe, recebe o cheque de 467 836 euros e o troféu do torneio.

Apesar da emoção, a final - tal como todo o torneio - ficou marcada pelas restrições à captação de imagem e som. De tal forma que no duelo entre Lewis e Jacobson, que noutro país seria seguido com várias câmaras de televisão e um outro ambiente mediático, parecia estar em jogo um prémio pouco relevante.


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