Justiça

Carlos Cruz. "Monstruosidade jurídica e um julgamento de preconceito"

por Mariana de Araújo Barbosa , Publicado em 04 de Setembro de 2010   
Diz-se condenado por um julgamento de "preconceito" e alvo de uma sentença "sem provas". Cruz continua a reclamar inocência
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Mãos cruzadas sobre a mesa, voz rouca, cabeça tombada. O olhar comunicador - do "senhor televisão", como foi tratado na conferência de imprensa - , a vontade de lutar mais, expressa em palavras. Carlos Cruz foi ontem condenado pelo colectivo de juízes da 8.ª vara criminal de Lisboa, coordenado por Ana Peres, a sete anos de prisão por terem ficado provados três dos seis crimes de que era acusado no processo Casa Pia. No entanto, continua a reclamar inocência. "Não sou, não [um homem condenado]. Porque só deixo que me condene quem tem bases para me condenar. Não sou condenado por aqueles que são incapazes de viver com a verdade, de conviver com a verdade".

Cruz refere-se a "um erro monstruoso". "Um processo que é uma monstruosidade jurídica e erro judicial. Uma sentença ditada pelo preconceito". Em declarações aos jornalistas, depois da leitura do acórdão, o apresentador de televisão falou durante mais de uma hora no hotel Altis, em Lisboa.

"Acabo de assistir a qualquer coisa que se fosse contado seria um pesadelo", começou o antigo apresentador de televisão. Cruz reafirmou a inocência que tem afirmado desde o início do processo, que começou em 2004. "Não há provas da minha culpa", reforçou o arguido mais mediático do processo, sublinhando que o processo Casa Pia teve uma idade curta: "Há muito tempo que o processo se chama Carlos Cruz", lamentou. Na semana passada, o apresentador disse, em entrevista ao i, que iria publicar no seu site informações relevantes do processo: a publicação terá sido concretizada já durante esta noite, depois da leitura do acórdão do colectivo de juízes.

Carlos Cruz disse estar preocupado com o estado do país, depois de uma decisão judicial que diz fazer lembrar o salazarismo. "Vêm-me à memória os tribunais plenários, anteriores ao 25 de Abril", comparou, desvalorizando a duração da pena - "podia ser condenado a sete, 14 ou 20 anos de prisão" -, mas reforçando o estado de desilusão face à existência de uma pena efectiva. "Vou continuar a lutar pela minha inocência que há-de chegar um dia", sublinhou.

meta longínqua No momento em que a juíza Ana Peres deu como provados três dos seis crimes - dois que relacionam Carlos Cruz com a casa de Elvas e um com um apartamento na Avenida das Forças Armadas, em Lisboa - o antigo apresentador de televisão fechou o punho sobre a mesa.

A condenação a três crimes de abuso sexual de menores dependentes significa, em cúmulo jurídico, uma pena de sete anos de prisão à qual a sua defesa vai recorrer. Além da pena de cadeia, Carlos Cruz foi condenado a pagar indemnizações no valor de 50 mil euros a duas das vítimas do processo - 25 mil euros a cada. O cliente de Sá Fernandes e Serra Lopes foi, no entanto, absolvido pelo colectivo de três dos seis crimes de que era acusado e dos pedidos de indemnização cível de vítimas e da Casa Pia de Lisboa.

Mais tarde, disse: "O que se passou hoje [ontem] no Campus de Justiça é um ponto de partida para uma luta. É mais uma etapa de uma luta pela inocência. E é uma luta pelo país. Que não pretendo beneficiar só a mim".

Carlos Cruz foi bombardeado com perguntas durante a conferência de imprensa, incluindo questões colocadas por jornalistas de meios de comunicação ingleses e espanhóis. O julgamento foi acompanhado por meios de todo o mundo. Questionado sobre se a mediatização do caso o assustava, Carlos Cruz respondeu que o caso poderá servir de exemplo a não seguir pela Justiça de outros países, já que considera que foi julgado e condenado por "factos que não aconteceram" em sítios que "não frequentou" e com pessoas que, garantiu, "não" conheceu.



recomendações "Pedi calma à minha família. Não quero lágrimas. Vou continuar a lutar pela minha inocência", contou Carlos Cruz sobre os telefonemas que se seguiram à leitura do acórdão.

Ao lado do apresentador estiveram sempre os advogados de defesa, que reforçaram o apoio a Carlos Cruz. Sá Fernandes elogiou "o homem bom" que tem tido o "privilégio" de defender. "Sinto-me hoje a poder tocar as estrelas" disse o advogado, acrescentando: "Estarei com o Sr. Carlos Cruz o tempo que for preciso, onde for preciso", colocando a hipótese de recorrer ao Tribunal Europeu dos Direitos Humanos. A interposição de um recurso permitiu a Carlos Cruz - bem como a todos os outros condenados - saírem em liberdade do tribunal, aguardando agora a deliberação dos juízes.

O apresentador referiu-se ao dia de ontem como "um dos dias de maior desilusão" da vida dele.


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