“Olho em volta e vejo veteranos. Já estivemos aqui antes e sabemos quão difícil isto será”, disse Hillary Clinton no primeiro dia de negociações directas, em Washington. Ao lado direito da secretária de Estado norte-americana, senta-se o primeiro-ministro israelita, Benjamim Netanyahu, ao lado esquerdo, Mahamud Abbas, líder da Autoridade Nacional Palestiniana.
As negociações de paz sobre o conflito israelo-palestino começaram ontem, na Casa Branca, e conseguiram em poucas horas um acordo singular na história centenária do conflito. Netanyahu e Abbas deverão reunir-se a cada duas semanas para discutir o processo de paz no território. Na agenda está já marcada a reunião de 14 e 15 de Setembro na qual também estarão presente Hillary Clinton e George Mitchell, enviado especial norte-americano para o Médio Oriente. Segundo as declarações feitas no final do encontro trilateral, está confirmado que a reunião de Setembro irá realizar-se no Egipto, em Sharm el Sheik, na região de Sinai, onde decorreram as negociações de 1999.
As melhores expectativas apontam para que o processo de paz agora iniciado se prolongue por um ano, objectivo, segundo George Mitchell, acordado pelas partes. É a primeira vez, desde Dezembro de 2008, que os líderes palestiniano e israelita se sentam em torno da mesma mesa. O primeiro-ministro israelita disse ontem tratar-se de uma grande tarefa “de passar do desacordo ao acordo relativamente a dois grandes pilares:a legitimidade e a segurança”
O ELEFANTE NA SALA Para Diogo Noivo, investigador do Instituto Português de Relações Internacionais e Segurança, as expectativas devem ser comedidas. “Não pelo empenho que Netanyahu e Abbas têm demonstrado, mas pelo papel do Hamas na Palestina.” Mesmo partindo do pressuposto que todos os pontos em discussão sejam resolvidos, explica o investigador, o grupo radical islâmico “que representa muito pouco os palestinianos, deverá continuar a recorrer sistematicamente à violência” minando o processo de paz. “Abbas não tem condições para afirmar que todos os palestinianos cumpram o acordo”. Em Washington, um jornalista perguntou a George Mitchell qual será o papel do Hamas no processo de paz: “Estamos abertos à participação do Hamas, desde que este cumpra os requisitos básicos da democracia e não-violência” respondeu Mitchell.
Nos últimos três dias o grupo radical islâmico reivindicou duas “operações heróicas” que resultaram em quatro mortos e dois feridos. As últimas notícias avançadas por um oficial israelita à agência AFP dão conta de uma cooperação positiva entre as forças de Israel e os serviços de segurança palestiniano nas ofensivas contra o Hamas. “Os serviços de segurança da Autoridade Palestiniana detiveram centenas de terroristas do Hamas desde os atentados”disse o oficial israelita, numa cooperação “que atingiu mesmo um dos níveis mais elevados desde os acordos de Oslo de 1993.”
Entretanto, aproxima-se o final da moratória que impede a construção de colonatos israelitas na faixa da Cisjordânia O governo de Netanyahu diz que não vai prolongar o prazo para além de 26 de Setembro e Abbas já fez saber que o retomar das construções põe fim às negociações em curso.
Avi Issacharoff, há cinco anos correspondente do jornal israelita “Haaretz” no conflito, não vê paz sem grandes renunciações “O governo de Netanyahu deve compreender o preço de acabar com o conflito. Querem paz? Dêem ao Abbas o Monte do Templo. Sem a soberania islâmica sobre o que os muçulmanos não teremos paz, nem daqui a uma década.”




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