EDITORIAL
As duas justiças sobre o professor Carlos Queiroz
por Manuel Queiroz , Publicado em 03 de Setembro de 2010
É estranho que o dr. Laurentino Dias fosse apoiar uma selecção com um seleccionador que se opunha a controlos antidoping...
Há várias formas de ver o processo a Carlos Queiroz, que a Autoridade Antidopagem de Portugal (ADoP) resolveu punir com seis meses de suspensão com fundamentos que foram publicados ontem.
Uma delas é que duas entidades de justiça particular, como é a desportiva, têm visões muito diferentes dos mesmos factos; outra é que a ADoP faz mesmo questão de considerar o comportamento do prof. Carlos Queiroz como muito grave, pelo que, estando em causa o que está, o seleccionador não tem mesmo qualquer hipótese de continuar no cargo.
Lendo a "Decisão" que ontem a ADoP fez publicar, conclui-se que o seleccionador nacional mentiu no processo disciplinar e que perturbou mesmo a acção de controlo do laboratório. Mentiu porque a ADoP dá como provado - ao contrário do CD - que o seleccionador nunca falou na hora de acordar os jogadores na altercação com os médicos no hotel da Covilhã e, sendo assim, o seu comportamento só pode ter sido mesmo, deduz-se, contra a acção de antidopagem em causa (o que é muito grave e foi a linha de defesa de Queiroz nas suas declarações públicas e no processo). A decisão põe mesmo em dúvida que o seleccionador tenha falado, numa reunião interna, em pedir um controlo antidoping, como ele declarou no primeiro processo. E a ADoP ainda lhe atribui expressões desagradáveis, para dizer o mínimo, que vão mais longe do que as que se provaram no primeiro processo que invocavam a mãe do dr. Luís Horta, presidente do ADoP.
Por outro lado, quem fez a participação dos factos à FPF foi o secretário de Estado do Desporto, Laurentino Dias, que na sua comunicação à Federação ordena mesmo a denúncia do caso ao Ministério Público. Ou seja, o caso era gravíssimo para o secretário de Estado apesar de os factos se terem passado dois meses antes da denúncia, que se concretizou a 23 de Julho (a acção de controlo fora a 16 de Maio). Ou seja, quase um mês depois de Portugal ter saído do Campeonato do Mundo, o que se verificou a 29 de Junho, ao perder com a Espanha nos oitavos-de-final.
Ora, tudo indica que o secretário de Estado já sabia do caso e por isso é estranho que Laurentino Dias tenha estado nos jogos da selecção a apoiá-la. Com um seleccionador que queria impedir um controlo antidoping? Se fosse eu tinha fugido disso.
Portugal não pode ter um seleccionador nacional suspeito de querer impedir um controlo antidoping e capaz de tratar médicos em funções oficiais da maneira que terá feito. É inaceitável.
O secretário de Estado, apesar de não ter autoridade sobre a Federação, não o vai deixar.
O dr. Luís Horta é homem conhecido como um chato - desculpem o plebeísmo -, mas competente e incorruptível. E fez parte da denúncia, mas não da decisão.
O secretário de Estado e a ADoP são opiniões que a Federação não pode deixar de ter em conta.
O caso, como aparece descrito na "Decisão", podia ter sido resolvido no momento sem problemas, como uma mera exaltação, porque afinal o controlo fez-se apesar da perturbação dos médicos. Ou podia atribuir-se-lhe a importância que se lhe atribuiu, ou seja, gravidade máxima. Sendo este o caso, o incidente é gravíssimo para a imagem de Portugal, da Federação e até do secretário de Estado no contexto da luta antidopagem mundial.
Carlos Queiroz disse na SIC que agora era uma questão de honra, não de dinheiro. Mas é muito mais do que tudo isso, é mesmo de dignidade profissional.
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