No segundo dia de protestos, governo diz que aumento dos preços é "irreversível". Futuro continua imprevisível
"Isto é uma situação bem diferente da de 2008. Há dois anos havia uma frente sindical que combatia o aumento do preço dos combustíveis, que afectava directamente as chapas [carrinhas do governo que transportam os trabalhadores da periferia para a capital]. Houve uma frente de negociação e o governo acabou por baixar os preços. Agora é completamente diferente, é uma série de distúrbios sem organização." A análise é de Pedro Morais, engenheiro industrial português a viver em Moçambique há um ano, e é tão precisa como a dos analistas: os manifestantes que ontem, pelo segundo dia consecutivo, mantiveram a capital moçambicana sob alerta, acalmaram, mas apenas ligeiramente. A população que protesta contra o aumento do preço de bens essenciais - de quase 20% em relação a Dezembro de 2009 - voltou a queimar pneus nos principais acessos a Maputo para impedir que as pessoas chegassem ao trabalho. O exército foi chamado a reforçar a polícia nas ruas da capital e o governo anunciou novos números oficiais: sete mortos e 288 feridos. "Digamos que hoje foi tudo com menor intensidade e em menos locais do que ontem. Mas houve disparos e houve mortos, não se sabe quantos, e há mais de 400 feridos", rebateu Jorge Jacinto.
O jornalista português a viver em Moçambique destacou a abertura da FACIM, "a FIL cá do sítio", como um aspecto de normalidade. "Era suposto ter inaugurado na terça-feira, mas abriu hoje e, apesar da pouca afluência, está a correr tudo bem. Há poucos minutos estive até com representantes da Mota-Engil e da Soares da Costa", envolvidos na preparação dos 10º Jogos Africanos - que acontecem de quatro em quatro anos e que têm lugar em Moçambique em Setembro de 2011.
"Está tudo calmo... dentro do que é possível. Espera-se, entretanto, que a África do Sul, de forma informal dê uma vital ajuda na estabilização, seja por via de contactos ao mais alto nível (que já hoje aconteceram nos bastidores) com o governo e com os principais partidos, seja pela ajuda económica exclusivamente direccionada para a barriga dos que continuam cheios de fome e que já estará a caminho de Moçambique", conta ao
i Orlando Castro, jornalista moçambicano.
Abafar os "vândalos". Apesar do aparente controlo das forças de segurança na capital, a situação continua impossível de prever. Ao início da manhã de ontem, algumas bombas de gasolina e mercearias abriram. "As bombas fecharam às 11h porque já não tinham combustível; as lojas encheram-se de centenas de pessoas em fila. Compraram o que podiam para se abastecerem, porque não sabem o que vai acontecer. As padarias que abriram tinham racionamento de até três pães por pessoa", explicou ao
i o jornalista português.
A reunião de emergência do Conselho de Ministros, que começou a meio da manhã, não correspondeu às expectativas das pessoas. "O aumento dos preços dos bens", como o pão, água e electricidade, "é irreversível", anunciou o governo da Frelimo. "Seguindo ainda alguns resquícios das cartilhas ditatoriais em que foi concebido, o governo está a implementar a razão da força e não a força da razão. A par de pôr nas ruas um vasto poderio bélico, decidiu manter o aumento dos preços e a sensação real é a de que são sempre os mesmos a pagar", diz Orlando Castro. O colunista do Notícias Lusófonas explica ao
i os meandros da revolta popular: "Do ponto de vista do povo, é difícil entender algumas coisas. Como é que, por exemplo, agora que a barragem de Cahora Bassa é totalmente moçambicana, a energia é mais cara do que no tempo em que a empresa era portuguesa?"
O que vai acontecer nos próximos dias depende de uma série de factores. Pedro Morais e Filipe Francisco, engenheiro agroindustrial que chegou a Moçambique duas semanas depois dos confrontos de 2008, explicam ao
i que o calendário dos próximos dias - segunda faz-se ponte, porque terça é feriado - pode não ajudar a acalmar os ânimos. O professor Pedro Borges Graça, especialista em História de Moçambique, usa o passado para tentar prever o futuro. "O aparelho repressivo continua o mesmo da época da ditadura; a coisa será abafada até nova explosão."
Desporto reconciliador? O dia de ontem ficou também marcado por uma entrevista do ministro dos Transportes e das Telecomunicações ao canal estatal. À mesma hora a que um motim se registava na prisão central de Machava (em Matola, periferia da capital) - com 2500 reclusos a exigir a libertação imediata, depois de ferirem o director da cadeia "com uma pedra grande" - Paulo Zucula dizia à TVM que "o governo ainda não usou todos os meios para acabar com a situação. Noutros países já tinha sido decretado estado de sítio". Jorge Jacinto vê nas palavras uma ameaça latente. "É quase transmitir que, se não acalmarem, amanhã será decretado estado de sítio - e aí as autoridades vão ter liberdade para agir como quiserem."
Politicamente, as esperanças são poucas. Orlando Castro diz que nem na oposição se pode depositar confiança "Continuam a culpar o governo, mas temem que se o fogo registado em Maputo se transformar num incêndio possam eles próprios sair chamuscados ou até mesmo realmente queimados. Por isso optam por exigir remodelações no governo para capitalizar em lume brando o descontentamento da esmagadora maioria dos moçambicanos."
A última esperança jaz num jogo de futebol: domingo, pelas 15h, a selecção moçambicana defronta a Líbia, em jogo de apuramento para a CAN 2012. Jorge Jacinto diz que a equipa já treinou "e o jogo foi confirmado. Há uma aposta clara no jogo como fonte de reconciliação para todos, porque quando os mambas jogam, o estádio da Machada enche, com 40 mil pessoas."
A esperança de calmaria, diz quem vive em Moçambique, está posta no jogo de apuramento para a CAN 2012
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