Processo Casa Pia
Bibi. Casa nova, vida nova. Até quando?
por Cláudia Garcia, Publicado em 03 de Setembro de 2010
Silvino vive há menos de um ano numa casa na zona norte de Lisboa, onde tem uma vida calma
Agora já não há ameaças, nem perseguições, nem olhares desconfiados dos vizinhos. Também não andam por lá jornalistas à porta, nem polícias. Carlos Silvino, o arguido do processo Casa Pia que responde por 167 crimes de abuso sexual e lenocínio, e que hoje vai conhecer a sentença, mudou de casa no final do ano passado, e trocou o apartamento na zona da Avenida das Forças Armadas, em Lisboa, por outro na zona norte da cidade. É lá que quer refazer a vida. Hoje tem uma namorada e com ela que quer viver, mas só "depois de tudo terminar", como admitiu em entrevista à RTP.
São raras as vezes em que "Bibi" recebe visitas na casa nova. Apenas "um casal, que vem de vez em quando". A rotina de Silvino é igual à de muitas pessoas. De manhã costuma sair para dar uma volta a pé, e agora tem a vantagem de não ser reconhecido tão facilmente, até porque está fisicamente diferente. Mas "Bibi" também faz um esforço para passar despercebido. "Usa óculos escuros, está mais gordo, mas tem muito bom aspecto", descreveu um vizinho, em declarações ao i. Quando vai às compras, enche sacos e sacos. "Às vezes tem de fazer duas viagens para conseguir levar tudo", conta uma empregada do supermercado. Silvino tem carro, mas quase não usa.
Já na nova casa, durante os primeiros meses, Silvino continuava a ser acompanhado pela polícia, como acontecia desde o final de 2005. "Mas já há algum tempo que desapareceram", conta Elisabete, que vive no primeiro andar do prédio do ex-motorista da Casa Pia. Com a mudança de casa, "Bibi" conseguiu mais privacidade. No prédio, habitado maioritariamente por famílias, a presença do principal arguido da Casa Pia não incomoda. Maria do Céu, vive no mesmo andar de Silvino, que considera muito "educado e atencioso". Do apartamento ao lado, é "raro ouvir-se barulho." No café mais próximo, o i encontrou um antigo empregado do armazém da Casa Pia, que conviveu com "Bibi" durante anos. Américo ficou surpreendido ao cruzar-se com o novo vizinho no bairro. Hoje cumprimentam-se apenas. "Ele quase não fala, eu respeito e nunca toquei no assunto."
As três janelas do terceiro andar, onde vive Silvino, permanecem fechadas durante todo o dia. A sensação é a de que a casa não é habitada. "Se não fosse a polícia ter vindo para aí, no início, ninguém sabia que ele cá estava", comenta uma vizinha. No entanto, os moradores garantem que vivem em segurança, recordando as obras que a Câmara fez. "Até lhe puseram porta blindada", conta uma vizinha.
Dez anos de prisão Antes de rebentar o escândalo da Casa Pia, "Bibi" vivia no bairro da Boa Hora, na Ajuda. Eram os tempos em que regressava a casa ao volante de um carro diferente a cada dia. Os vizinhos começaram achar isto estranho. "Ele dizia que trabalhava num stand e que os carros eram de lá", conta uma antiga vizinha de nome Florípedes. "Depois soubemos de quem eram os carros...", acrescentou a mulher, que se mudou com vários outros vizinhos, incluindo Carlos Silvino, para as casas novas, junto há Avenida das Forças Armadas. "Toda a gente gostava muito do Bibi. Os meus filhos brincavam sempre com ele". A tia Pides, como lhe chamava Silvino, falou sobre os almoços em casa da comadre, os jantares de Natal e até nas festas na colégio Pina Manique. "Quando havia festas, ele chamava e nós íamos todos."
Na Boa Hora Silvino era acarinhado pelos moradores. "Ele nunca teve muito dinheiro. Vivíamos num bairro social, de gente pobre, e ele às vezes comprava coisas e oferecia-nos", recorda José Moita Martins, "vizinho e amigo" de "Bibi". José assegura que "no bairro já se falava do seu passado". No entanto, recorda que o antigo motorista nunca levou ninguém para casa. "Se teve namoradas nunca as conhecemos". Depois, a Câmara distribuiu os moradores da Boa Hora por vários bairros de Lisboa. A vinda de Silvino para o bairro do Rêgo coincidiu com o espoletar do processo, no início da década. Depois de ter estado preso durante três anos, voltou a casa, onde esteve em prisão domiciliária.
Eram os dias em que o bairro do Rêgo era um foco de conflitos entre vizinhos, que dividiam opiniões sobre o processo e a inocência de "Bibi". Até que em Dezembro de 2009, o arguido mudou-se. A Gebalis não explicou o motivo da transferência. Numa das poucas entrevistas que deu, à RTP, Silvino garantiu ter recebido ameaças, que fizeram dos seus últimos anos muito penosos. E admite ter projectos profissionais e pessoais para o futuro. Mas aos 53 anos, Carlos Silvino, depende da decisão de hoje, que pode mudar tudo.
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