Hoje têm entre 19 e 27 anos. Dois têm filhos e casaram. Pelo menos cinco vão estar hoje no tribunal, a ouvir o acórdão
Surgem quase sempre no
plural. Nas notícias e
referências ao
processo Casa Pia, são os rapazes ou as
vítimas. Como se fossem um só, sem
rosto, a acusar arguidos mediáticos. Os 32 ex-casapianos nem sequer se conhecem todos entre si. Têm a uni-los apenas "o azar de terem estado no lugar errado à hora errada". O
processo judicial não os aproximou nem há motivos para se
cruzarem fora do tribunal. Cada um tenta seguir a sua vida, com resultados
desiguais.É fácil adivinhar que esta noite F. e J. terão dormido mal. Duas vezes contaram com uma decisão sobre os abusos que denunciaram. À terceira, temem um imprevisto de última hora. Vão estar, com pelo menos mais três vítimas, a ouvir atentamente o que a juíza Ana Peres terá a dizer. Serão pelo menos cinco, mas outros dois ainda ponderavam, ontem à tarde, aparecer no Campus da Justiça de Lisboa, no Parque das Nações. "Não temos nada a temer. Como não querermos saber, no momento certo, o que vai acontecer?", questiona F.
Estão previstas medidas especiais de segurança para estes jovens, à semelhança do que acontece com os arguidos. Não entrarão pela sala principal e não terão contacto uns com os outros. Estarão sentados logo atrás do advogado, num lugar protegido mas à vista de toda a assistência. Para quem não os conhece, serão caras como outras quaisquer. A história, já a contaram a quem de direito. E alguns, sempre os mesmos, os que se dispõem a abrir o livro aos jornalistas, continuam a responder e a contar como é apanhar e juntar os cacos do passado. Num relato em que é difícil evitar clichés.
Alguns dos rapazes fizeram-se homens. Os mais velhos têm 27 anos e o mais novo 19. A maioria tem entre 23 e 25. Só dois estão casados e com filhos. E A., um dos mais estáveis e aplicados nos estudos, tem uma namorada de anos - manter uma relação é mais difícil do que possa parecer. "Imagine que o namorado lhe contava que tinha sofrido abusos sexuais. E imagine que decidia partilhar o segredo com a família. Acha que a relação sobreviveria?"
Poucos têm empregos estáveis, não estão todos em Portugal e há pelo menos dois que já tiveram acidentes de percurso: um está ainda a cumprir pena por tráfico de droga. Envergonhadas do passado, roídas pelo ódio que confessaram em tribunal, duas das vítimas tentaram o suicídio. Com o passar dos anos aprenderam a controlar a ansiedade e a saber, por mais desligados que estejam, como vão os antigos colegas. Quando telefonam aos advogados ou aos psicólogos que os acompanharam, perguntam sempre como estão "os outros".
O tempo, pesado para vítimas e arguidos, mede-se em meia dúzia de exemplos. Carlos Cruz foi avô enquanto decorria o julgamento. A juíza Ester Santos, uma das que integra o colectivo, e a advogada Sónia Cristóvão (que representa Hugo Marçal) foram mães. Duas testemunhas morreram. Mas por muitas que tenham sido as mudanças, e sejam quais forem as decisões hoje proferidas para cada arguido, uma coisa é certa: o processo Casa Pia deixou em todos os protagonistas - vítimas, arguidos ou elementos do sistema de justiça - uma marca que nem o tempo apaga.
"Imagine que o namorado lhe contava que tinha sofrido abusos sexuais. Acha que a relação sobreviveria?"
Durante o julgamento, Carlos Cruz foi avô, uma juíza e uma advogada foram mães e duas testemunhas morreram
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