Matar um filho. Viver com a culpa ou desafiar a morte

por Marta Cerqueira, Publicado em 03 de Setembro de 2010   
Por acidente ou crime premeditado, a culpa pela morte de um filho dificilmente é ultrapassada
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Durante a tarde, João Cerqueira Pinto pediu à ex-mulher para ir buscar a filha à escola. No final do dia de aulas, ajudou-a nos trabalhos de casa, deu-lhe o lanche e preparou-lhe o jantar. Quando estavam no sofá, depois de a filha o ter abraçado, João puxou as pontas do cinto do robe - que a criança trazia ao pescoço - e estrangulou-a. Apesar das constantes ameaças feitas à ex-mulher, nas quais prometia "mostrar o monstro" que era, nada fazia prever este desfecho, que deixou vizinhos e familiares incrédulos.

O motivo pelo qual cometeu o crime, dia 28 de Maio de 2009, nunca ficou claro durante as sessões do julgamento. O arguido mostrou-se sempre arrependido, mas não conseguiu explicar por que razão cometeu o crime. Os juízes decidiram atenuar a pena (arriscava até 25 anos), devido ao estado depressivo do indivíduo e por acreditarem que não tinha agido com premeditação.

Para Rui Abrunhosa Gonçalves, mestre em Psicologia do Comportamento Desviante e professor da Universidade do Minho, o suicídio acaba por ser, muitas vezes, o final mais previsível nestes casos. "Para fazer o luto é preciso estar de consciência tranquila. Quando há um contributo para a morte, o luto é ainda mais difícil, é criada uma grande confusão mental", explicou ao i. "O criador não destrói a sua criação, ou seja, matar um filho - considerada a confirmação genética dos pais - é, de certa forma, matar-se a si próprio, perpetuado com o suicídio do progenitor", acrescenta o psicólogo Hélder Chambel,

Por acidente ou crime premeditado, por distracção ou vingança, os psicólogos são unânimes em apontar um factor comum a todos os acusados da morte de um filho: a culpa.

No entanto, o psicólogo clínico e formador comportamental Hélder Chambel, distingue a culpa consciente da inconsciente. A primeira será aquela em que a pessoa é capaz de sentir e verbalizar aquilo que sente. É o caso das depressões, em que as pessoas estão conscientes do seu sofrimento. Já a culpa inconsciente tende a ter uma dimensão mais complexa. Segundo explicou ao i o psicólogo, "a tristeza que adviria de pensar e sentir essa culpa não seria suportável e, por isso, é recalcada. Isso não significa que tenha sido esquecido, pelo contrário, a culpa passa a comandar a vida da pessoa sem que ela se aperceba, levando a possíveis comportamentos de risco". Hélder Chambel acrescenta que existem personalidades que, pelo seu desenvolvimento, são mais susceptíveis a vivenciar sentimentos de culpa, dependendo das relações significativas estabelecidas desde a infância.

Crianças atropeladas na garagem de casa, tiros acidentais com armas de caça, descuidos com água a ferver, bebés esquecidos em carros, são algumas das histórias mais comuns que envolvem a morte de uma criança por negligência familiar. "Quando existe realmente uma evidência de responsabilidade, por acidente ou descuido, ou por não entendimento de pedido derradeiro de ajuda, essa culpabilidade é geralmente agravada para situações de angústia insuportável", explica ao i o psicólogo clínico José Paz, acrescentando que "pode ser gerado um sentimento de impotência, de irrevogabilidade, de desespero podendo levar a uma apatia emocional ou culminar em suicídio subsequente". Segundo o psicólogo e professor na Universidade Autónoma, mesmo quando a culpa não é real, "pode emergir o sentimento de que poderíamos ter agido de forma diferente ou que os julgamentos foram precipitados" - o que acontece frequentemente quando se trata da morte de alguém muito próximo.

Acompanhados durante o tempo de detenção e no início da reintegração social e familiar, os pais "devem receber o tratamento psicológico adequado de modo a permitir um desenvolvimento emocional e afectivo", explicou Hélder Chambel. Ultrapassar o sentimento de culpa raramente é uma possibilidade para o psicólogo José Vaz. "O sofrimento pode, com o tempo, tomar outros contornos e intensidades. Mais do que ultrapassar este sentimento, pode dar-se a aceitação desse episódio como uma parte da história de vida", acrescenta.


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