Agostinho Oliveira. Chamavam-lhe Pezinhos, agora é o piloto automático

Publicado em 02 de Setembro de 2010   
Conheça o bombeiro da selecção, homem de esquerda que sentiu o pós-25 de Abril, estudante de Filosofia, galã à portuguesa e treinador que um dia, antes de entregar a equipa nacional a Scolari, disse: "Então... até à próxima". E aí está ele de novo
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Quando deixou o Sporting de Braga e foi jogar dois anos emprestado na Académica, entre 1968 e 1970, Agostinho Oliveira ganhou alcunha. "Chamavam-lhe Pezinhos, tinha os pés pequeninos e metidos para dentro", conta um dos colegas de então, naquele plantel treinado por Mário Wilson. Hoje, quem quiser pode sempre pegar na inspiração de Gilberto Madaíl e chamar-lhe "piloto automático", depois de o presidente da FPF ter dado a entender que a selecção nem precisa de substituto para Carlos Queiroz. Mas ele existe e chama-se Agostinho Oliveira.

Em Coimbra havia a equipa de reservas - às vezes com jogadores como Artur (jogaria no Benfica e no Sporting), Alhinho (passou nos três grandes), Araújo (FC Porto) ou Vasco Lynce (futuro secretário de Estado do Desporto) - e a equipa principal, com Gervásio ou Artur Jorge. E Agostinho passeava os pezinhos pelos dois lados, sempre acompanhado da sua boa disposição. "Aquele plantel das reservas era conhecido como ''a passarada'', recebia convites para festas nas terras de antigos estudantes e nós lá íamos".

Agostinho Oliveira era o galã. A imagem da camisa aberta e do fio ao peito não é de hoje porque o sedutor à portuguesa sempre passeou o charme pelos bailaricos que iam aparecendo. "Mas atenção, nunca arranjou um problema, divertia- -se sem nunca faltar ao respeito". Por exemplo, na Académica, o alvo das piadas era o professor Falcão, um preparador físico alto e de costas empenadas. "Conseguia chamar-lhe marreco, implicava com ele, mas sempre numa linguagem cordial, com piada."

Jogador e estudante, homem com pés e cabeça. Agostinho era homem de levar um livro debaixo do braço e já depois de deixar Coimbra viria a formar-se em Filosofia na Faculdade de Letras do Porto, em 1973. Ao mesmo tempo meteu-se na política e assumiu-se de esquerda (tal como Artur Jorge). Trabalhou na Direcção-Geral dos Desportos entre 1974 e 1976, deu aulas em Braga, mas nem sempre viveu confortável no meio da direita bracarense. Tornou-se treinador no clube que o formou e chegaria à selecção nacional no final dos anos 80. Aí, Agostinho Oliveira viria a conduzir Portugal às vitórias em dois europeus sub-18 (1994 e 1999) e dois sub-16 (1996 e 2000). Como treinador adjunto ganhou o Mundial sub-20 em 1991 (ao lado de Carlos Queiroz), o quarto lugar nos Jogos Olímpicos de Atlanta (com Nelo Vingada, em 1996) e foi "vice" no Euro''2004.



fase scolari Em 2002, depois do falhanço de António Oliveira no Mundial da Coreia e Japão, Agostinho Oliveira foi nomeado seleccionador nacional interino, assegurando a transição para Scolari. Em quatro jogos, conquistou dois empates (Inglaterra e Tunísia) e duas vitórias (Suécia e Escócia), estreando jogadores como Paulo Ferreira, Pedro Mendes, Nuno Assis, Tiago e Ricardo Rocha.

Após a última partida, curiosamente na "sua" Braga, diria aos jornalistas um "então... até à próxima". E agora aí está ele de volta, como uma espécie de bombeiro para as emergências, cumprindo a convocatória e as instruções que o seu líder, Carlos Queiroz, lhe passa à distância da suspensão. "O Agostinho é amigo do seu amigo, não falha", diz ao i quem o conhece desde Coimbra.

Agostinho, portanto, não vai falhar a Queiroz, o homem que o recuperou para o primeiro plano depois do desaguisado com Scolari, em 2006, quando questionou então algumas das opções do brasileiro para o Mundial da Alemanha. Agostinho era apenas o seleccionador sub-21, Scolari o seu superior. "No organograma da federação eu estou abaixo do presidente e tenho uma equipa técnica a trabalhar comigo", lembrou o "chefão".

2006 foi o ano horrível do treinador. Esperava-se que Agostinho Oliveira pudesse ganhar o Europeu sub-21, em Portugal, para mais com jogadores como Moutinho, Quaresma, Raul Meireles, Manuel Fernandes, Varela e Hugo Almeida, mas a equipa nem sequer passou da primeira fase. "É difícil explicar o que aconteceu, tínhamos grandes jogadores mas se calhar não soubemos jogar como equipa", lembra Nélson, o lateral direito ex-Benfica, hoje no Osasuna. "Não foi pelo treinador, o Agostinho tinha uma relação espectacular com todos, é daqueles que gostam de pôr toda a gente à vontade".

Nélson, lesionado com uma hérnia, foi a esse Europeu porque Agostinho intercedeu junto do Benfica, para adiar uma operação ao jogador. "O que ele fez por mim faria por outro qualquer." E o que fará agora?


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