Moçambique

Maputo. Caos instalado pelos que só podem pensar com a barriga

por Joana Azevedo Viana, Publicado em 02 de Setembro de 2010   
Revolta contra preços de bens básicos leva a mortes e destruição na capital moçambicana. Caos pode continuar
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"Veja que é fácil pôr os que têm fome só a pensarem com a barriga. Foi isso que se passou." Orlando Castro, jornalista moçambicano do jornal online Notícias Lusófonas, é analítico a falar ao i sobre os protestos que ontem assolaram as redondezas de Maputo. Depois dos protestos de Fevereiro de 2008, que fizeram seis mortos nas manifestações contra o aumento dos preços dos combustíveis, o país manteve-se calmo. Mas ontem a população voltou a sair à rua e os confrontos acabaram com dez mortos e dezenas de feridos.

Os números não foram confirmados e o governo moçambicano, da Frelimo, garante que apenas três pessoas perderam a vida quando a polícia trocou as balas de borracha e o gás lacrimogéneo por balas verdadeiras para "controlar o caos". A acção valeu as críticas da Amnistia Internacional e da oposição, à espera de uma eventual revolta popular. "A Renamo e o MDM [Movimento Democrático de Moçambique] anunciaram o seu papel político de cordeiros, mas nos bastidores vestiram a pele de lobo. Não terão estimulado os protestos, mas, é claro, nada fizeram para os evitar."

Rastilho A verdade é que o espectro de uma possível revolta social pairava sobre a capital moçambicana há vários meses. O rastilho foi o terceiro aumento no espaço de meses dos preços de bens de consumo, como o pão e o arroz, a electricidade e a água. Em apenas dois meses, um saco de arroz da marca mais barata subiu de 500 meticais (10,66€) para 650 meticais (13,85€), aumentos insuportáveis para a maioria da população moçambicana que continua a viver abaixo do limiar da pobreza: 30% dos 20 milhões de moçambicanos vivem em pobreza extrema. A situação agrava-se com a desvalorização acentuada do metical face à moeda sul-africana, ao dólar e ao euro. "É um potenciador preocupante dos aumentos dos preços, porque muitos destes bens são importados da África do Sul", explica Jorge Jacinto, jornalista português a viver em Moçambique. "A manifestação de protesto contra a situação não foi autorizada, pelo que os manifestantes aproveitaram a hora de saída dos trabalhadores, pelas 5h30 (4h30 em Lisboa) para os impedirem de apanhar as chapas para Maputo, incendiando pneus para cortarem os acessos à capital".

Piéce de resistance "Espere, espere. Estou a ouvir tiros! E não é dos subúrbios, eu vivo no centro de Maputo." O barulho não alterou o tom de voz de Jorge Jacinto, que ao telefone continuou a descrever ao i como se desenrolaram os acontecimentos.

As chapas - pequenas carrinhas que transportam os trabalhadores da periferia para Maputo - foram a grande fonte de poder nos protestos. Mas não impediram que a tensão chegasse às principais artérias da capital. A Avenida de Moçambique e a de Angola e o bairro do Alto de Maé - onde Cavaco Silva viveu quando prestou serviço militar em Moçambique - tornaram-se focos de tensão, quando os "grupos de bandidos" se aproveitaram da situação. "Houve claramente um aproveitamento desses grupos, que actuam cortando vias de acesso, atacando os seus vizinhos cidadãos e aproveitando para pilhagens."

É esta a razão apontada pelo governo para se terem trocado as balas de borracha por balas verdadeiras. Situação que, tal como a Renamo, o moçambicano Kadinho considera inadmissível. "Estava lá e a polícia estava a disparar directamente contra os manifestantes, embora eles não fizessem nada de mais", conta ao i o artista plástico. "Estamos calados há demasiados anos e não podemos continuar na merda."

As pilhagens que se seguiram aos protestos tornaram-se fonte de maior preocupação. Os comerciantes foram aconselhados a fechar as lojas, as escolas mandaram os alunos para casa. O governo veio garantir que foram meros "actos de vandalismo", com o presidente Armando Guebuza a comunicar, ao final da tarde, que "é importante preservar e valorizar as nossas conquistas" e regressar à "normalidade".

Mas a normalidade, diz quem lá vive, pode não voltar já. O acordar hoje, em Maputo, vai ditar os próximos dias. Em 2008, conta Fernanda Lopes, advogada portuguesa sedeada na capital moçambicana, "o governo foi sensato e teve a sensibilidade de perceber o que a população queria". A opinião é partilhada por Orlando Castro, que alerta contudo: "Gato escaldado, de água fria tem medo e desta vez não será tão fácil, porque ao contrário do que foi prometido há dois anos, Moçambique viu crescer o fosso entre ricos e pobres", explica o jornalista.

A "situação crítica" também descrita ao i pela dona Janette, moçambicana que trabalha no centro de Maputo, começou com um email na semana passada. Ontem, fontes no local já falavam em telefonemas de convocatória para novos protestos. À tarde, os motins estenderam-se à Beira, com receios de que cheguem a Nampula - base da Renamo, no Norte do país. Perante a iminência de novos protestos, o governo avisou: "Não aceitaremos mais vandalismo."


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