Moda
Nina Garcia. Os dress codes da jurada de "Project Runway"
por Alex Williams, Publicado em 02 de Setembro de 2010
O que vestir numa separação? E para conhecer os pais do namorado? As respostas estão no quarto guia de uma improvável ditadora de tendências
Nina Garcia, júri do "Project Runway" e directora de moda da "Marie Claire" americana, voava, no ano passado, de Nova Iorque para Paris, quando uma hospedeira se agachou ao seu lado e, timidamente, tentou meter conversa. Mais uma fã do programa, pensou Garcia. Mas a hospedeira queria era conselhos: a irmã ia casar-se com um homem que tinha sido seu namorado. Sem ser o saco de serapilheira na cabeça, o que devia vestir? Garcia deu o seu veredicto: "Não tente fazer sombra à noiva. Apenas parecerá desesperada. Mas assegure-se que mostra ao tipo o que ele perdeu." E mais uma coisa: "Definitivamente, não vá de branco."
Como rosto da moda da cultura pop, Garcia, 43 anos, tornou-se um íman para estranhas que procuram conselhos. "Nina Garcia''s Look Book: What to Wear for Every Occasion", lançado nos Estados Unidos em Agosto, tenta responder a todas as dúvidas. É o quarto guia de estilo para mulheres escrito por Garcia. É também o último exemplo de como ela está a construir a sua própria marca, não sendo apenas uma editora de moda.
Dias difíceis Vivemos tempos complicados para os nomes que encabeçam as fichas técnicas das revistas de moda. As receitas publicitárias foram abaladas por uma recessão prolongada e a ascensão de bloggers especialistas de moda na Internet assenhorou-se da influência outrora incontestada das editoras das revistas na ditadura das tendências.
No entanto, Garcia conseguiu evitar essa crise existencial. Como? Para além de traduzir as doutrinas de moda na revista "Marie Claire" (onde aterrou depois uma saída controversa da "Elle"), Garcia é a estrela de vídeos de "makeover" no site da Target e continua a ser júri no "Project Runway", agora na sua oitava temporada nos EUA (a versão portuguesa do programa, "Projecto Moda", começou este ano a ser emitida na RTP).
"A editora de moda como a conhecíamos mudou", diz Garcia, enquanto almoça na cafetaria da Hearst Tower, na 57th Street, em Nova Iorque, onde fica a redacção da "Marie Claire". Veste uma túnica de seda preta de Michael Kors (colega de júri) e uma saia da Zara que mal esconde a sua gravidez de seis meses. "Agora, devemos usar muitos chapéus e quem disser o contrário está errado."
Seja como for, Garcia é uma improvável conselheira de moda. Cresceu em Barranquilla, na Colômbia, filha de um magnata da marinha mercante. Depois de frequentar a Universidade de Boston, Garcia estudou moda em Paris e Nova Iorque. Porém, diz, com a mãe, que usava Pucci e Celine, que realmente aprendeu. Depois de estagiar na marca de roupa Perry Ellis no final dos anos 1980, rapidamente ascendeu de assistente na revista "Mirabella" para directora de moda na "Elle" em 2000. Ainda assim, era relativamente desconhecida fora da indústria quando os seus patrões a empurraram para "Project Runway".
Até saber que Michael Kors e Heidi Klum seriam as estrelas do programa, Garcia teve dúvidas. Outros tempos: a reality TV tinha pouco prestígio aos olhos das pessoas do mundo da moda e ainda não havia uma necessidade tão urgente de arranjar fontes alternativas de publicidade.
Além disso, diz, "sou muito tímida no que diz respeito a expor-me, pelo que a minha reacção inicial foi: ''Não, não vou fazer parte do programa, é uma ideia maluca. Quem é que vai ver?''" Para sua surpresa, até os membros da nobreza da moda foram conquistados pelo programa. Garcia recorda-se quando Bee Shaffer, filha de Anna Wintour, telefonou à produtora a pedir bilhetes para a gravação do final da primeira temporada. A colombiana estava a caminho de se tornar numa espécie de celebridade.
A juíza Mas a exposição trouxe dissabores. A sua saída da "Elle" foi escrutinada na imprensa cor-de-rosa. Segundo as notícias da altura, Garcia foi apanhada no lado errado de uma luta de poder entre o departamento de moda, gerido na altura por Gilles Bensimon, e a equipa editorial, liderada por Roberta Myers. Não ficou muito tempo sem trabalho. Joanna Coles, directora da "Marie Claire", rapidamente a contratou. E não só Garcia continuou a ser júri no "Project Runway" (a "Marie Claire" substituiu a Elle como parceira) como também apareceu noutro programa, "Running in Heels", que acompanhava os estagiários da "Marie Claire" na sua experiência estilo "O Diabo Veste Prada".
Durante este tempo, Garcia sempre manteve o seu estilo: evita a frivolidade, preferindo peças clássicas, quase minimalistas. Isso traduz a sua mensagem: escolha a elegância simples. É a melhor maneira, diz, de as mulheres se vestirem quando enfrentam situações espinhosas, Mas quando se é solteira e se vai sair com as amigas no Dia dos Namorados, botas apertadas ou até ao joelho são uma boa opção: "Calçar umas botas ferozes é um sinal instantâneo de ''olhem para mim.''"
São estas as questões que "Look Book" aborda. Nele, Garcia aparece mais como uma tia benevolente do que como um juíza ácida da alta moda. O que vestir quando há uma separação? "Talvez deva escolher algo escuro, cinzento metalizado, para acompanhar a sua decisão." Ser voluntária na sopa dos pobres? "Não conheço nenhuma forma de dar estilo a uma rede de cabelo", diz, acrescentando: "Pelo sim pelo não, traga um gorro apertado para tapar a touca." Conhecer os pais de um homem? "Escolha tons quentes ou florais suaves; são ambos convidativos e terrenos." Isto não quer dizer que Garcia tenha as respostas todas. Ela admite que, no próximo mês, enfrentará o seu próprio desafio no que toca a vestir-se. O que usar na Semana da Moda de Nova Iorque quando se está grávida de sete meses? "Será complicado."
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