Victoria Coren. Uma viagem ao tempo em que as mulheres não se metiam no póquer
por Rui Catalão, Publicado em 01 de Setembro de 2010
Entrou no mundo do póquer para conhecer rapazes e nunca mais quis sair. Além disso, é jornalista e apresenta programas na televisão britânica
Faça de conta que está num filme do início dos anos 90, com um casino londrino como cenário. Num canto, uma série de homens com aspecto duvidoso joga póquer. As senhoras ficam longe dessas mesas. Entretêm-se com a roleta ou com o blackjack. Menos uma: Victoria Coren, uma jovem que se junta àquele melting pot de testosterona. Do lado direito está um chinês, que impressiona pela longa unha no dedo mindinho; à esquerda um escocês baixinho, que anda sempre com um casaco enorme cheio de frascos de medicamentos. Quando alguém espirra abre de imediato o casaco, tira um comprimido e diz-lhe: "Tome, acho que precisa disto." Na mesma mesa, um outro homem destaca-se. Não pelo aspecto, banal, mas pela singularidade da alcunha - O Relógio - que nasceu quando fazia parte de um grupo de ladrões: enquanto os outros tratavam do assalto, ele ficava cá fora a controlar as horas.
Foi neste ambiente que Victoria Coren, hoje com 37 anos, começou a jogar póquer a sério. Porque o bichinho nasceu em casa. O irmão mais velho jogava com os amigos na cozinha, enquanto bebiam e fumavam. Na altura, Coren viu ali apenas uma boa oportunidade para conhecer rapazes. "Se o meu irmão jogasse críquete, se calhar tinha ido atrás e tinha-me tornado profissional de críquete. Queria era conhecer rapazes." Passado algum tempo, achou--os aborrecidos. Mas "o fascínio por este jogo maravilhoso, que obriga a estimular o cérebro e ainda dá dinheiro", ficou até hoje.
Quando está longe das mesas de jogo, é provável que Victoria Coren esteja a escrever. É colunista do "The Guardian" e do "The Observer" e até já tem alguns livros publicados. Um deles, recheado de memórias, aborda a relação com o póquer. Outro recupera uma história da juventude, quando chegou a ser crítica de cinema numa revista pornográfica. "Era engraçado. Não falava do sexo, mas sim da história, das personagens. E era sempre a mesma coisa - como por exemplo o canalizador que vai a uma casa consertar um cano mas que depois... enfim, o resto toda a gente sabe." Cansada da falta de qualidade, tentou criar o melhor filme pornográfico de sempre, com um guião interessante. O resultado foi um filme sem sexo.
Mesmo assim, o fracasso de Vicky, como também é conhecida, ficou por aí. Além do póquer e da escrita, também já apresentou vários programas na televisão britânica. Pelo meio sobram apenas alguns acidentes de percurso. Como a carteira com dez mil euros que se esqueceu de trazer. "Estão à vontade para ir roubar a minha casa. Sou tão idiota..."
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Artigo: Victoria Coren. Uma viagem ao tempo em que as mulheres não se metiam no póquer
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