ENSAIO
Iraque: mentirosos ou idiotas úteis
por Alfredo Barroso, Publicado em 01 de Setembro de 2010
Ou Barroso, Portas e Martins da Cruz sabiam que era mentira o que Blair, Bush e Rumsfeld lhes impingiram ou também foram enganados. A escolha é embaraçosa
o contrário do que afirma Martins da Cruz, então Ministro dos Negócios Estrangeiros do governo PSD-CDS chefiado por Durão Barroso, não havia, em 2003, "consenso generalizado sobre a existência de armas de destruição massiva (ADM) no Iraque". Tal consenso restringia-se ao trio dos Açores (Bush, Blair e Aznar), ao seu "mordomo", Durão Barroso, e outros governantes europeus desejosos de embarcarem no comboio da invasão e ocupação ilegais do Iraque, contra o sentimento da esmagadora maioria das opiniões públicas europeias.
Por um lado, havia as análises e informações manipuladas pelos serviços secretos americanos e britânicos, a mando de Blair, Bush, Rumsfeld e quejandos. Para estes, as ADM cresciam como cogumelos e o exército de Saddam era o quinto mais poderoso do mundo, apesar de dez anos de embargo e desmantelamento sistemático de ADM.
Por outro lado, havia as análises e informações públicas produzidas por Hans Blix (diplomata sueco que chefiava a missão de inspectores de armamento da ONU), Mohamed El Baradei (diplomata egípcio que sucedeu a Blix como director-geral da Agência Internacional de Energia Atómica), antigos inspectores da ONU e correspondentes militares e enviados especiais de jornais americanos e europeus. Todos estes afirmavam peremptoriamente que já não existiam ADM no Iraque. E Hans Blix declarou publicamente que ele e os seus inspectores já tinham "feito cerca de 700 inspecções e em nenhum caso foram encontradas ADM" em qualquer sítio do Iraque.
Pessoalmente, sempre dei crédito a estas fontes públicas e, por isso mesmo, não hesitei em afirmar no "Expresso", a 18 de Janeiro de 2003 (três meses antes da invasão), que Bush e Blair preferiam invadir o Iraque, e não a Coreia do Norte, porque "no Iraque (...) há ouro negro, o Ladrão de Bagdad (Saddam Hussein) está cada vez mais fraco e já não possui armas de destruição massiva". Como o pior cego é aquele que não quer ver, o trio lusitano constituído por Durão Barroso (PM), Paulo Portas (MD) e Martins da Cruz (MNE) apoiou garbosamente a invasão militar ilegal do Iraque, que teve início a 20 de Março de 2003. Com as consequências devastadoras que se conhecem. E só não enviaram tropas porque o então Presidente, Jorge Sampaio, sensatamente não o permitiu. Mas vingaram-se, enviando uma pequena força da GNR (e um "socialista" que lhes caiu como sopa no mel: o dr. José Lamego, lembram-se?).
Afirmei há dias, na SIC Notícias, que Barroso e Portas "mentiram deliberadamente aos portugueses" (sobre a existência de ADM e células da Al Qaeda no Iraque). Devia ter sido mais subtil: Barroso e Portas colaboraram activamente e com entusiasmo na mentira que os senhores Blair, Bush e Rumsfeld (o "amigo Donald" de Paulo Portas) pregaram ao mundo, com o apoio ideológico de neo-conservadores (ex-esquerdistas que se tornaram aprendizes de feiticeiro). Porque, das duas, uma: ou Barroso, Portas e Martins da Cruz sabiam que era mentira o que Blair, Bush e Rumsfeld lhes impingiram, e portaram-se como mentirosos compulsivos; ou também foram enganados e portaram-se como idiotas úteis. A escolha é embaraçosa.
O balanço de sete anos de guerra é desastroso, sob todos os pontos de vista. A contabilidade dos mortos é cruel. O registo das perdas americanas é muito preciso: até 24 de Agosto, morreram 4420 militares e 1487 funcionários civis, além de 31 897 feridos em combate. Do lado iraquiano, o registo é tão vago quanto assustador: cerca de meio milhão de mortos, embora as diversas estimativas oscilem entre 200 000 e 600 00 mortos. Ninguém estabelece a diferença entre aqueles que foram vítimas da estratégia de "choque e pavor" das tropas americanas e britânicas, aqueles que têm sido vítimas da guerra civil entre sunitas e xiitas desencadeada pela invasão, e aqueles que continuam a ser vítimas da estratégia terrorista posta em prática pela Al Qaeda, cujos elementos só lograram infiltrar-se no Iraque a partir da ocupação militar do país.
Entre todos os governantes política e moralmente responsáveis pela invasão e ocupação do Iraque, e pelas carnificinas que se seguiram, ainda há alguns que se mantêm activos e cuja indiferença perante a tragédia é total. Entre estes contam-se: o "mordomo das Lajes", Durão Barroso, promovido a presidente da Comissão Europeia (que continua em Bruxelas a presidir ao "desastre europeu"); e o "amigo de Rumsfeld", Paulo Portas, que não despega da liderança do CDS e continua bastante preocupado com a segurança dos portugueses (a dos iraquianos que vá para o diabo!).
Numa altura em que os políticos de direita não poupam nos insultos e passam o tempo a chamar "mentiroso" ao PM, seria útil que os presidentes do PPD/PSD e do CDS/PP se interrogassem sobre o passado recente dos seus partidos e chegassem a uma conclusão: os seus antecessores, em 2003, portaram-se como mentirosos ou como idiotas úteis? Paulo Portas pode ser dispensado de responder, para não decidir como juiz em causa própria.
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