visto de fora
O fracasso de Obama no Sudão
por Nicholas Kristof, Publicado em 31 de Agosto de 2010
Não obstante todas as suas falhas, Bush herdou uma guerra no Sudão e conseguiu transformá-la numa paz. Obama herdou uma paz que pode transformar-se na mais sangrenta guerra de 2011
Quando o presidente Barack Obama estava na corrida para a Casa Branca, criticou os republicanos por não fazerem o suficiente pelo Darfur e insistiu que faria do Sudão uma prioridade. "O que fizemos não foi nem por sombras suficiente", disse-me numa entrevista em 2006, quando me coube ser apresentador convidado de um segmento "Charlie Rose" sobre o Sudão. E acrescentou que Washington precisava de "um esforço diplomático sustentado para exercer pressão sobre o Sudão". Nos dias que correm, Obama preside a uma política incoerente, contraditória e aparentemente votada ao fracasso no Sudão. Existe um risco crescente de que o Sudão seja o palco da guerra mais sangrenta de 2011 e talvez mesmo de uma nova vaga de genocídio. Não é culpa dos EUA, mas a verdade é que não estamos a usar toda a influência para o evitar.
É certo que Obama tem várias outras prioridades. É certo também que o Sudão é uma confusão sem soluções perfeitas à vista. Ninguém espera que Obama consagre muito tempo ao Sudão. Mas o problema não está no facto de a administração estar demasiado ocupada para elaborar uma política relativa ao Sudão, mas no de ter meia dúzia de políticas muitas vezes contraditórias. Como foi noticiado pela "Foreign Policy", estão na secretária de Obama várias recomendações que competem umas contra as outras, reflectindo dissensão no seio da administração. Uma delas, da chefe da diplomacia dos EUA, Hillary Clinton, e do enviado de Obama ao Sudão, major-general Scott Gration, centra-se, ao que parece, na continuação de incentivos e no empenho. A outra, que preconiza uma abordagem mais dura, é da autoria da embaixadora dos EUA na ONU, Susan Rice, a pessoa que, de longe, tem mais experiência na interacção com o Sudão.
Cerca de 70 organizações enviaram uma carta conjunta a Obama, apelando para que trabalhe mais energicamente de modo a evitar novo reacender da guerra no Sudão. Mas até agora o presidente não se tem empenhado muito e a administração está a ter menos êxito do que a última de Bush no que respeita a mudar o comportamento do Sudão. O resultado é que a guerra civil intermitente que no Sudão opõe o Norte ao sul pode voltar a deflagrar em breve. Com que gravidade? A última ronda dessa guerra durou 20 anos e matou mais de 2 milhões de pessoas. O anterior chefe da segurança nacional do consulado Obama, Dennis Blair, avisou que o local com maior risco de genocídio é o Sul do Sudão.
Os meus leitores regulares sabem que não fui um entusiasta de George W. Bush. Mas, contra todas as expectativas, uma das suas realizações emblemáticas foi um acordo de paz em 2005 que fez terminar a última ronda dessa guerra. Esse acordo previa a realização de um referendo em Janeiro, no qual o Sul do Sudão poderia optar pela secessão. A previsão é que os meridionais votem esmagadoramente pela secessão. Mas o Sul tem a maior parte do petróleo do país e o Norte está determinado a não perder os poços que alimentam a economia nacional.
A administração Obama já tentou, no Sudão, a abordagem das cenouras sem paus e teve razão em querer obter a participação activa de Cartum. Retomou a emissão de vistos dos EUA no Sudão e, ao princípio, esta boa vontade produziu resultados. Por exemplo, alguns grupos de assistência humanitária que tinham sido expulsos do Darfur foram autorizados a regressar de forma diferente. E, durante um tempo, o Darfur ficou mais calmo.
Mas, nos últimos meses, o Sudão tem vindo a endurecer as suas posições, talvez por constatar que o facto de se portar mal não lhe traz penalizações (e por ver que há limites às contrapartidas por se portar bem). Tem perseguido dissidentes e jornalistas, cilindrou um acto eleitoral e, nas últimas duas semanas, limitou o acesso das organizações humanitárias a Kalma, enorme campo de refugiados do Darfur. Restringiu ainda a capacidade de os elementos da força de paz da ONU se protegerem ou protegerem terceiros. Mais revelador é o facto de o governo sudanês estar a atrasar os preparativos para o referendo no Sul. E é possível que tenha estado a encaminhar armamento para facções locais descontentes. Ninguém espera contenção da parte do presidente Omar Hassan al-Bashir, que foi acusado de genocídio pelo Tribunal Penal Internacional.
Não obstante todas as suas falhas, Bush herdou uma guerra no Sudão e conseguiu transformá-la numa paz. Obama herdou uma paz que pode transformar-se na mais sangrenta guerra de 2011.
A administração Obama acaba de enviar ao Sudão um talentoso ex-embaixador, Princeton Lyman, como chefe de uma equipa para operar no terreno. Isso é útil, mas Washington podia fazer muito mais. Podia apoiar as forças de paz da ONU e trabalhar ao mais alto nível com a República Popular da China, Reino Unido, Egipto e outros países, para evitar nova guerra. Uma medida útil seria encarregar o vice-presidente, Joe Biden, do assunto, pelo menos durante os próximos seis meses.
A assembleia-geral da ONU também precisa de tratar da questão do Sudão quando se reunir no mês que vem. Será a última oportunidade para um envolvimento de alto nível antes do referendo. Há muitas falsas razões para criticar a política externa de Obama, mas esta é perfeitamente legítima. Num lugar como o Sudão, um fracasso da diplomacia dos EUA pode levar a centenas de milhares de mortes.
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