Ciganos. "Não sei como Portugal reagiria a um elevado fluxo de imigrantes"

por Mariana de Araújo Barbosa, Publicado em 30 de Agosto de 2010   
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"Não sei como reagiríamos se chegasse a Portugal o fluxo de imigrantes que chega a outros países." A dúvida é de Rosário Carneiro, deputada socialista e coordenadora de um relatório elaborado pela Comissão Parlamentar de Ética, Sociedade e Cultura sobre a comunidade cigana em Portugal. De acordo com o relatório, em Portugal há entre 50 mil e 60 mil pessoas de etnia cigana, sendo que os países de onde estas famílias são provenientes não foram apurados.

Para Rosário Carneiro, um dos principais entraves à integração dos ciganos é o alto índice de pobreza dessas comunidades. E essa será também uma das razões pelas quais alguns países têm levado a cabo políticas de expulsão de cidadãos de etnia cigana. "É muito complicado. É evidente que estes países todos, nomeadamente por causa da crise, apertam a livre circulação de imigrantes, tentam fechar a circulação entre fronteiras, que é comum a todos os países da União Europeia", revela a deputada.

No entanto, no caso português, trata- -se de uma comunidade que, segundo a coordenadora do relatório, está normalmente integrada com a restante população. "A questão dos ciganos que já faziam parte da comunidade, do tecido local, não se coloca. A expulsão acontece com todos os outros, mas é uma acção que já não faz parte, de maneira nenhuma, do entender do mundo global", acrescenta.

Por isso, para Rosário Carneiro, a realidade portuguesa está ainda bem longe da francesa - que começou no final de Julho a expulsar cidadãos de etnia cigana, ou da italiana. Itália já anunciou o mesmo processo para os próximos meses. "A questão da expulsão de imigrantes ciganos romenos não tem qualquer paralelo com Portugal, porque em Portugal temos uma comunidade de etnia cigana de 50 mil a 60 mil pessoas, apesar de não se saber o número certo. Esta comunidade vive em Portugal há 500 anos, mantendo os seus traços culturais, e estas pessoas são cidadãos portugueses como todos os outros", sublinha.

Bruxelas recomendou a cada país que adeqúe as medidas nacionais à realidade local, abrindo caminho a decisões distintas. E, apesar das reservas em relação à atitude dos portugueses, Rosário Carneiro sublinha a importância do aumento da preocupação das instituições europeias relativamente à integração destes imigrantes. "De há dois anos para cá, a Comissão Europeia tem-se vindo a preocupar bastante com a comunidade roma, com os povos roma. São uns milhões, na Europa, sempre disseminados e nunca distribuídos de forma igual. A marca desta população, com identidades muito próprias, permite identificá-las com a pobreza: é uma marca presente de forma muito repetida. Tem havido recomendações aos Estados nesse sentido. E desenvolvimento de políticas integradas que actuem sobre os vários sectores, à procura de uma maior integração destas comunidades na sociedade,."

discriminação "O problema de integração é permanente e persistente, porque apenas parte da comunidade estará integrada", explica Rosário Carneiro, referindo que um dos factores que mais dificultam essa integração está relacionado com a carência de bens essenciais, sendo que a pobreza é mais um elemento que aumenta o abismo das diferenças culturais: "Claro que a discriminação em Portugal, como em todo o mundo, é consciente. Há uma discriminação relativamente aos pobres. Os pobres são preguiçosos, indolentes, mas se são ciganos, aumenta essa discriminação. Terá menos oportunidades do que um pobre só pobre. E não se trata só da parte de quem discrimina. Tem a ver com movimentos reflexivos, a intensidade não é igual, mas cumulativa", assinala.

integraÇÃo "As comunidades tendem a fechar-se nas suas características como factor identitário, o que dificulta a integração. E quanto mais isolamento existir, mais cresce o medo da não aceitação nas restantes comunidades. E a exclusão não se faz através de sinais objectivos", sublinha Rosário Carneiro, relembrando que a comissão organizadora do relatório sobre os números da comunidade cigana em Portugal já tinha chamado a atenção para a necessidade de um modelo integrado a longo prazo, que coordenasse os vários sectores, como a Saúde ou a Educação.

Roménia A liberdade dada por Bruxelas levou a que França começasse a desmantelar acampamentos ilegais de ciganos e a expatriar essas famílias para os países de origem. Desde o início do ano, o governo francês já deportou mais de oito mil ciganos e, até ao final de Agosto, França deverá repatriar cerca de 950 mil ciganos romenos, mas sem proibição de viajar ou regressar a França. Apesar das críticas na comunidade internacional, que acusa França de xenofobia, a expulsão colectiva da comunidade roma teve a aprovação de 65% dos franceses e encontrou eco noutros países. Bucareste reagiu apenas com um alerta sobre o risco de haver um aumento da xenofobia e racismo, sendo acompanhada por Bruxelas, mas Paris acusou a Roménia de de desprezar a integração dos ciganos e pediu mesmo à União Europeia para que obrigue Bucareste a usar os 4 mil milhões de euros de fundos europeus destinados a programas de inserção.


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