Editorial
Hipermercados e vida em sociedade
por Manuel Queiroz , Publicado em 27 de Agosto de 2010
Queremos uma sociedade completamente desregulada ou com menos violência sobre a vida das pessoas?
O vereador José Sá Fernandes diz que vai fazer tudo o que puder para que as grandes superfícies não abram ao domingo em Lisboa. O governo, recorde-se, deixou ao critério das câmaras os horários do comércio em geral e por isso estas autarquias começam agora a ter de tomar decisões.
Esta era uma daquelas questões que, num país que estivesse regionalizado, devia ser decidida nesse patamar, para que houvesse coerência. Não faz sentido não se poder abrir em Lisboa e poder abrir em Loures ou no Porto e na Maia. Falseia a concorrência, até porque a mobilidade que as pessoas têm torna um pouco ridículo que se decida a nível tão micro. Mas não somos um país regionalizado e é pena.
Hoje o tempo é de Simplex - para abrir e para fechar negócios e outras coisas. E assim o ar do tempo é indubitavelmente no sentido de que tudo deve estar aberto sempre, porque os dias têm 24 horas e as semanas sete dias.
Insisto, na esteira do que já escrevi, que em boa parte da Europa se tem resistido a esse clima desenfreado, em que tudo tem de estar sempre disponível. Mesmo no Reino Unido, que não cultiva o tão decantado modelo social europeu, isso não existe. E não falo na Alemanha, na Suíça, na França.
É evidente que a questão é económica, mas está muito longe de ser só económica. É quase uma questão filosófica e, insisto, tem a ver também com o tal modelo social europeu. E nesse aspecto é bem engraçado que seja um governo socialista a dar este passo, ele que em muitas outras coisas se ufana de defender esse modelo social. Mas esse modelo não é independente da vida das pessoas, embora, concedo, haja diversos países em que as coisas são entendidas assim. Como provavelmente não faz sentido que possam abrir os grandes shoppings e não possam abrir os hipermercados, as chamadas grandes superfícies.
Falo como alguém que, ao longo da sua vida, foi e é obrigado a trabalhar ao domingo porque presta um serviço público.
Podemos ver tudo como uma questão económica e então não há leis que possam restringir o crescimento económico, se é que não estamos num ponto estacionário de desenvolvimento, por muito que façamos.
Mas eu sou pelo personalismo, que defende uma visão do mundo que parte da pessoa como ser humano, parte das suas necessidades, do seu bem- -estar emocional. Não esqueço a necessidade de emprego para a realização individual, mas tenho dúvidas que seja através da abertura ao domingo dos hipermercados que isso, de facto, se consiga. Não ignoro que a escala dos estabelecimentos é importante na economia actual, mas é preciso saber muito bem o que queremos como sociedade. Há coisas destas que fazem mais pela mudança radical da nossa vida que 200 leis vistas como reformas de grande alcance.
A minha dúvida é clara: queremos uma sociedade completamente desregulada (e há algumas que vivem bem assim, embora não seja na Europa com que nos queremos comparar mais) ou uma sociedade que vai evoluindo com menos pressão, ia a escrever menos violência sobre as pessoas? A nossa tradição é mais a segunda, em que existe pelo menos uma tarde de domingo em que se tenha a oportunidade de dar atenção aos outros.
Não podemos sacrificar tudo ao consumo. É muito provável que Ricardo Sá Fernandes tenha o apoio, neste caso, de forças mais à direita. O que será eventualmente um incómodo para ele, que não tem um grande registo como travão de grandes mudanças...
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Artigo: Hipermercados e vida em sociedade
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