Crise

Irlanda. O antigo milagre que luta para não ser a próxima Grécia

por Luís Reis Ribeiro, Publicado em 27 de Agosto de 2010   
O colapso dos bancos e do mercado da construção afundou o milagre celta. Mas o país tem forças para recuperar
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Em poucos anos, muita coisa mudou, para pior, na Irlanda. O país, que costumava ser apontado como exemplo de sucesso pela generalidade dos economistas portugueses, deverá registar este ano o défice público mais alto de que há memória numa nação da zona euro. Seguramente, mais de 20% do produto. E deverá acumular três anos consecutivos de recessão em 2011. Se o tigre celta, hoje ferido, não for bem tratado poderá mesmo tornar-se na próxima Grécia.

O descalabro das contas públicas, que tem sobretudo a ver com o salvamento de bancos privados com o dinheiro dos contribuintes, está a ensombrar a retoma dos próximos anos. Em todo o caso, os economistas acreditam que o buraco orçamental altera pouco as capacidades de base da economia: uma população relativamente bem qualificada, um défice externo mais ou menos controlado e a sua relação umbilical (e cultural) com o mundo anglo-saxónico, designadamente os Estados Unidos.

Mas o problema das contas e da dívida pública tem de ser tratado, dizem os observadores. Esta semana o aviso veio de duas agências de rating, Moody''s e Standard & Poor''s (S&P): ou o país reduz o défice e promove uma maior transparência em torno dos seus bancos mais problemáticos (Anglo Irish Bank, nacionalizado no início de 2009, é o caso mais agudo), ou continuará a sofrer cortes no rating - o nível qualidade da dívida - podendo assim sofrer dificuldades sérias no acesso ao crédito, como aconteceu com a Grécia.

Na ilha, o problema está muito radicada no mercado imobiliário e nas estratégias de investimento agressivas, grande parte delas ilícitas e nada seguras, nas quais os bancos embarcaram durante anos.

A crise financeira de meados de 2007 e o colapso do Lehman Brothers em Nova Iorque viriam a quebrar todas as pontes de confiança entre bancos. As instituições irlandesas não fugiram à regra: casos como o Anglo Irish, um banco de investimento, mostraram como é possível uma instituição ficar sem financiamento. Sem esse dinheiro, deixou de poder cumprir as suas obrigações: tinha nos seus balanços o equivalente a metade do valor total da economia, a esmagadora maioria desse dinheiro estava aplicada no mercado imobiliário.

A história grega também é bem conhecida: o país não estava a conseguir financiar-se como pretendia e a União Europeia (UE) teve de montar em tempo recorde um esquema de salvamento, um género de fundo monetário europeu em articulação com o Fundo Monetário Internacional, para injectar dinheiro na Grécia.

O futuro irlandês continua sombrio. Trevor Cullinan, economista da S&P que foi responsável pela análise da economia portuguesa durante vários anos, é hoje o líder da equipa que avalia a Irlanda. Esta semana a agência reduziu o rating do país de AA para AA-, naquele que é o nível mais baixo desde 1995. Ainda assim, apesar do total descalabro nas contas públicas (a S&P aponta para um défice de 34,5% do PIB este ano e para uma dívida pública de quase 130%), Portugal continua a ser mais prejudicado pois tem um rating mais baixo (A-), com probabilidade de vir ser outra vez reduzido (outlook negativo).

O problema irlandês é que "o custo orçamental projectado do governo irlandês com o apoio aos sector financeiro irlandês aumentou de forma significativa face às nossas estimativas anteriores", diz Cullinan.

E porquê? "Aumentámos a nossa estimativa do custo para o governo irlandês na recapitalização das instituições financeiras de 30 a 35 mil milhões de euros [cerca de 19% a 22% do PIB] para 45 a 50 mil milhões de euros [29% a 32% do PIB]." Para o analista, "estas projecções revistas têm em conta o recente anúncio do governo no sentido de injectar mais capital no Anglo Irish Bank". Só este banco, hoje nacionalizado, vai comer 15% do PIB em recursos dos contribuintes, podendo a marca chegar aos 22% do PIB, diz a S&P.

O governo insurgiu-se imediatamente com esta análise da S&P, considerando-a desajustada e demasiado pessimista, mas concorda que é preciso trabalhar numa solução estável para o sector financeiro.

Segundo a Reuters, Dara Calleary, ministro de Estado, explicou ontem que o governo de Dublin está muito empenhado em encontrar uma solução rápida com a ajuda da Comissão Europeia. O governante disse querer provar à S&P e aos investidores de todo o mundo que "os fundamentos da economia continuam fortes".

A S&P projecta para 2010 um terceiro ano de recessão, mas diz que daí em diante a economia ficará a crescer a um ritmo anual na casa dos 2%. Em Julho, o governo admitiu que o desemprego é hoje uma das maiores preocupações do país: este problema afecta mais de 13% da população activa, pior dos que os 10% registados em Portugal. Dublin refere que a destruição de emprego está sobretudo ligada à "severidade" da crise no mercado da construção e imobiliários.

Mas longe vão os tempos em que o consenso dos economistas falava do tigre celta. Em 2004, Carla Guapo Costa, investigadora do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas, escrevia num artigo que "tendo sido durante séculos uma remota economia rural sem base industrial, a Irlanda tornou-se numa das mais bem-sucedidas economias mundiais de alta tecnologia no espaço de poucas décadas". Nos próximos anos, a luta do tigre será feroz para recuperar nem que seja uma parte da pujança do passado.


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