Têm menos de 18 anos, compram tabaco e não acham difícil
Publicado em 26 de Agosto de 2010
Três adolescentes contam como passam por cima da lei: voz grossa e evitar máquinas são alguns dos truques
"O meu truque é ser natural. Entro num café ou numa tabacaria calmamente e peço um maço como um adulto." Manuel sabe as manhas certas para fazer crescer os seus 16 anos até aos 18 sempre que se aproxima de um balcão. Às vezes, também engrossa a voz, alinhando o timbre com a compostura, que quem fala assim não pode ser menor. Mas na maioria dos casos, não precisa de fingir uma maioridade que não tem. "Não acho difícil comprar. Nem conheço ninguém a dizer que não fuma porque não consegue comprar tabaco."
Desde Novembro de 2007 que a venda de cigarros a menores está vedada. A redução do consumo na adolescência é um dos objectivos da legislação sobre o tabagismo. Os jovens sabem que não podem adquirir maços. Mas estão mais preocupados em esconder os cigarros dos pais do que a idade dos comerciantes. E garantem que não nunca sentiram os entraves da lei.
"É indiferente. Não querem saber, não se importam." Joana, 16 anos e três de fumadora, garante que não é frequente encontrar um comerciante preocupado com os malefícios do fumo. Nunca teve dificuldades em comprar tabaco. Vive na Figueira da Foz e sabe exactamente quais os cafés e tabacarias onde pode entrar com umas moedas e sair com um maço, sem perguntas nem pedidos de identificação pelo meio. "Há uns que implicam, mas quando é assim vou-me embora e pronto. Compro noutro lugar." E não precisa de procurar muito.
Em Lisboa, Manuel também não perde muito tempo à procura do spot perfeito para a infracção. Apenas prefere as tabacarias e os cafés que vendem directamente em mãos. "Nas máquinas temos de pedir para desbloquear, dá mais nas vistas." Em algumas ocasiões, o vendedor pergunta-lhe se tem 18 anos. "Eu respondo que sim, e ele dá-me." Raramente lhe pedem o BI, mas num quiosque do bairro, já ouviu outro tipo de pedido. "Mete discretamente no bolso, mete no bolso", sussurrou-lhe o vendedor, com medo de algum cliente mais atento e zeloso do cumprimento da lei.
Os olhares de reprovação de outros clientes funcionam para Joana como filtro. Evita comprar cigarros em cafés com pessoas conhecidas. "Se não houver ninguém conhecido, compro na boa."
"É mais difícil comprar nos cafés mais populares, porque às vezes as pessoas fazem comentários", conta Manuel. "Nunca fui repreendido, é mais na brincadeira. Dizem: Tu deves ter uns 21, deves. Mas sem problemas." É o único tipo de incidente que tem para contar. A reprovação alheia não é algo comum.
Inês vive em Almada, tem 17 anos e fuma desde os 16. Mas também não tem dificuldade em chegar aos cigarros. "Nunca me pedem o BI, nas máquinas também nunca tive problemas. Quando tinha 16 era mais difícil, mas pedia às minhas amigas mais velhas, ou tentava noutro sítio", conta. Por ela, não pensa em deixar os cigarros tão cedo. Fuma "uma média de dez" por dia. Mas garante que está longe se preocupar. "Ainda agora, estou a passar férias com os meus pais e como não fumo ao pé deles, ainda não toquei num cigarro. Não sou viciada, quando não posso fumar não fumo", justifica, rematando: "Tenho amigas que já não conseguem passar sem fumar, mas não é o meu caso."
Joana já pensou em deixar os cigarros, mas não para já. "A maioria dos meus amigos fuma, não consigo estar com eles e não fumar, faz-me confusão. Tento controlar, mas não dá mesmo para deixar. É impossível!" Manuel tem uma explicação científica e outra sociológica para manter o hábito. Ouviu dizer que após 15 anos, um ex-fumador regressa aos níveis de risco de um não fumador e, por isso, já fez as contas: deixará os cigarros lá para os 30 ou 40 anos. A explicação sociológica é a da adolescência. "Aos 16 anos estamos na idade de experimentar. Quem é que quer saber o que lhe pode acontecer uns anos depois?"
Tem mais informações sobre esta notícia?
Conte a sua história. Seja um iRepórter.
Artigo: Têm menos de 18 anos, compram tabaco e não acham difícil
Actividade em ionline