O Bloco na clandestinidade
Publicado em 25 de Agosto de 2010
O PCP tem, finalmente, o seu candidato presidencial. Francisco Lopes, um quadro todo-poderoso do partido, desconhecido até agora da maioria dos portugueses, tem uma tarefa partidária mais fácil do que parecia: o Bloco de Esquerda - arqui-inimigo e concorrente no mesmo espaço político - vai passar à clandestinidade política. Durante uma campanha presidencial inteirinha, Francisco Louçã e restantes dirigentes vão engolir em seco, e provavelmente em respeitoso silêncio, à medida que Manuel Alegre for desfiando as qualidades de José Sócrates, as magnificências dos discursos de Sócrates, do Estado social de Sócrates e a genuína via de esquerda de Sócrates. É natural que Alegre o faça: afinal, ainda é Sócrates, por muito estranho que pareça, o maior activo eleitoral do PS. E se Alegre tem a garantia de um significativo contra-vapor de algum PS, é óbvio que para ter o melhor resultado possível nas eleições não pode em nenhum momento hostilizar o chefe do partido. É aí que o papel do Bloco não poderá ir além dos tais "procedimentos ambíguos" de que falava Jerónimo de Sousa: assobiar para o ar enquanto Alegre presta homenagens a Sócrates, fazer uma campanha paralela contra o governo em clara contradição com Alegre ou passar à clandestinidade política entre Dezembro e Janeiro. O que parecia uma boa ideia - apoiar o candidato da "nova esquerda" saída da "cidadania" (um nicho de mercado que Alegre explorou brilhantemente em 2006, para inveja do próprio Bloco) transformou-se num monstro. Agora, o Bloco apoia o candidato do PS e do governo e nem tem uma esperança de vitória para repartir. ana.lopes@ionline.pt
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