Assange fala em "truques sujos" para justificar acusação de abusos sexuais

Publicado em 25 de Agosto de 2010   
Julian Assange, fundador da Wikileaks, garante que está a ser alvo de uma campanha de difamação lançada pelo Pentágono, que ordenou a destruição de documentos confidenciais
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O Pentágono confirmou ontem que não vai abrir qualquer hipótese de dialogar com a organização Wikileaks. Enquanto o Ministério Público sueco está a analisar as acusações de abuso sexual que duas mulheres lançaram contra Julian Assange, o líder da organização, fontes próximas do caso garantem que não há aqui conspiração. "Não sei quem se esconde por detrás destas informações, mas já tinha sido avisado de que o Pentágono, por exemplo, podia usar truques sujos para nos destruir", afirmou Julian Assange, no fim-de-semana, ao jornal sueco "Aftonbladet".

A procuradora-geral responsável pelo caso refere que não há provas que sustentem os argumentos usados pelo fundador da WikiLeaks, que está de férias em casa de um amigo, no Norte da Suécia. "Não tenho nenhuma indicação nesse sentido", disse Eva Finne ao "The New York Times" (NYT). O australiano, de 39 anos - que nos últimos tempos tem criado problemas ao Pentágono, depois de em Julho ter divulgado mais de 70 mil relatórios confidenciais sobre o conflito - negou as acusações e lamentou as autoridades suecas não terem tentado contactá-lo antes de emitirem o mandado de captura, que acabou por ser anulado horas mais tarde.

"Vou estudar as acusações minuciosamente e tomarei uma decisão sobre a sua qualificação nos próximos dias", disse a procuradora-geral. Caso Finne decida avançar com uma queixa de violação contra Assange, o fundador da organização, retratado pela "New Yorker" como uma figura quase sobrenatural, que "desceu à Terra para revelar as verdades escondidas", poderá ser condenado a um ano de prisão, a pena máxima para o crime segundo a lei sueca.

Segundo a acusação pública sueca, as denúncias feitas sexta-feira pelas duas mulheres suecas - uma activista na casa dos 30, que trabalha para um grupo com ligações à WikiLeaks, e outra, artista, alguns anos mais nova - eram "profundamente perturbadoras". O primeiro caso refere-se a uma queixa de assédio sexual e o segundo, que Finne revogou por falta de provas, a uma violação. Numa altura em que a divulgação de mais de 15 mil novos documentos sobre a guerra do Afeganistão está iminente, uma fonte anónima próxima de Assange garantiu ao "NYT" que "o Pentágono não tem nada que ver com a situação" e que o caso era apenas "um assunto entre três pessoas que se descontrolaram".

Embora Assange, de 39 anos, já não seja oficialmente suspeito de violação, a procuradoria sueca reiterou esta segunda-feira que mantém os dois processos abertos. Na entrevista ao jornal de Estocolmo "Aftonbladet", Assange recusou- -se a falar da relação que mantinha com as duas mulheres: "Não quero arrastar a vida privada de ninguém para a porcaria sem primeiro compreender toda a situação de forma clara", esclareceu. "O que posso dizer é que nunca, na Suécia ou em outro país qualquer, tive sexo com alguém sem o total consentimento de ambas as partes", acrescentou ainda.

Suécia Com os confrontos com o departamento de Defesa norte-americano a intensificarem-se, o australiano fundador do Wikileaks deixou este mês o Reino Unido e mudou-se para a Suécia, com o objectivo de se estabelecer num sítio mais seguro.

"Não sei o que está por trás disto, mas também já tinha sido alertado para as armadilhas sexuais", confessou Assange. "E sei por experiência própria que os inimigos da WikiLeaks vão continuar espalhar coisas, mesmo depois de terem sido apanhados."

"É claro, já há algum tempo que o Pentágono iria adorar enfiar uma bala no cérebro de Julian Assange", defende o bloguista Lew Rockwell. Mas como "enviar uma equipa de profissionais" seria má gestão ao nível das relações públicas, "os artistas da desinformação da junta militar [norte-americana] " usaram, em vez disso, "acusações sexuais falsas". Para o bloguista canadiano Matthew Good, tudo "encaixa no modus operandi da CIA como uma luva" e Alexander Higgins, de Nova Jérsia, defende que "o governo dos EUA cresceu de facto para um regime big brother orwelliano", onde a "corrupção está além de qualquer controlo".

Os advogados do Pentágono defendem que a WikiLeaks actuou de forma ilegal na divulgação dos documentos e Eric Holder, procurador-geral dos EUA, disse a 28 de Julho que o Departamento de Justiça norte-americano, que inclui o FBI, estava a investigar as fontes da organização.

O departamento norte-americano já tinha ordenado à WikiLeaks que retirasse os documentos do site, os destruísse e devolvesse os que ainda estão por divulgar. Assange limitou-se então a encolher os ombros e disse que não cedia a chantagens.


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