É muito cedo para saber
por João Rodrigues, Publicado em 23 de Agosto de 2010
Estará a China realmente prestes a tornar-se na maior economia do mundo? Por enquanto, mantém muitos traços de um país em desenvolvimento
Zhou Enlai, um dirigente comunista chinês, foi um dia questionado sobre o impacto da Revolução Francesa de 1789, ao que ele terá respondido que ainda era muito cedo para saber. Imaginem então o que dizer de um processo tão incerto como o da transformação da China em nova potência hegemónica, assente numa economia em expansão industrial, que ultrapassou o Japão e que, a manter-se esta trajectória, se tornará a maior economia.
Escrevem-se livros com títulos bombásticos: "Quando a China mandar no mundo", por exemplo. No entanto, o PIB per capita chinês equivale ao de qualquer pequeno país em desenvolvimento. Isto para não falar da dependência, que muitos consideram excessiva, face às exportações para os países do centro. Estas assentam em baixos salários, mesmo tendo em conta o nível de desenvolvimento. Isto só é possível devido à repressão do movimento sindical independente e à gestão política do mais intenso processo de proletarização da história da Humanidade. Num contexto de crise e de desindustrialização nos países do Atlântico Norte, uma reacção proteccionista tornar-se-á aí cada vez mais plausível.
Seja como for, a ascensão da China exercita a imaginação intelectual. Aí emergiu um modelo económico híbrido, uma opaca combinação de modos de produção. O contextual Consenso de Pequim ensombra o neoliberal Consenso de Washington: da complexidade e dispersão dos diversos direitos de propriedade, por exemplo da terra, ao arrepio de todas as cartilhas, à correspondente facilidade com que o Estado pode desenvolver as infra-estruturas do país, passando pelo controlo estatal quase total da banca (a banca pública representa mais de 80% do sistema bancário) ou pelo controlo de capitais, que permitiu, por exemplo, escapar às turbulências financeiras do modelo liberal.
Acrescentem a isto as políticas industriais agressivas de inserção internacional, características do Milagre Asiático, com muitos subsídios e exigências de transferência de tecnologia. Como sublinhou Dani Rodrik, estas foram parcialmente substituídas, depois da adesão à OMC, por uma política cambial controlada publicamente para desvalorizar a moeda e para assim aumentar a competitividade das exportações. O simplismo do "comércio livre", quando se fala da China, é ainda mais evidente.
A recente política chinesa de estímulo económico, assente no investimento público e no aumento das despesas sociais, parece retirada de um manual keynesiano. Depois do desmantelamento da boa herança comunista na área da saúde, desmantelamento esse que muito contribuiu para a compressão do consumo interno de que agora muitos se queixam e para a relativamente medíocre evolução dos indicadores de saúde depois da década de 80, assiste--se agora a uma lenta reconstrução da provisão, publicamente suportada, de saúde. É um sinal interessante de aprendizagem com os erros de uma liberalização excessiva em algumas áreas. Mesmo as autoridades chinesas não podem ignorar todos os custos sociais do desenvolvimento do capitalismo, ainda que com características chinesas. Definitivamente, é muito cedo para saber.
Economista e co-autor do blogue Ladrões de Bicicletas (ladroesdebicicletas.blogspot.com)
Tem mais informações sobre esta notícia?
Conte a sua história. Seja um iRepórter.
Artigo: É muito cedo para saber
Actividade em ionline