Festival
Boom. Ataques de pânico, paranóia, bad trips? Eles tratam de tudo
por Clara Silva, Publicado em 23 de Agosto de 2010
Uma tenda para quem tem más experiências com drogas, psicólogos psicadélicos e um laboratório. O i conheceu o outro lado do festival
A câmara de Jon Hanna já fotografou muitas das drogas que circulam no Boom Festival. E até quinta-feira, dia em que acaba o festival, vai continuar a fotografar. O norte-americano de 42 anos quer reunir imagens de todos os tipos de drogas para pô-las no site da Erowid - www.erowid.com - a maior base de dados de substâncias psicoactivas na internet.
"Trago-te aqui um Dalai Lama", diz um rapaz com um selo de LSD na mão enquanto entra no posto de informações, que na verdade é uma tenda de índios. Pela segunda vez, Jon foi convidado pela organização do festival para dar conselhos sobre drogas e responder a todas as perguntas "com base na experiência própria e em estudos", diz ao i.
"Há poucos minutos esteve aqui um rapaz que queria experimentar cogumelos mágicos pela primeira vez", conta. "Queria saber qual era a melhor altura do dia para tomar, que dose é recomendável e outras informações desse género." Ao lado do computador onde se pode aceder ao site da Erowid, o especialista em drogas colou um papel em inglês onde incita os festivaleiros a trazerem as suas drogas para serem fotografadas. "Yes, we are that geek", escreveu.
Brit, uma holandesa de 29 anos, entra na tenda com um sorriso e um frasco de iboga na mão. "É uma substância alucinogénea tirada da raiz de uma planta africana que pode ser usada para curar vícios", explica. "Como a heroína, o álcool, o tabaco ou até pequenos vícios da nossa rotina." É a primeira vez que Brit está no Boom, mas, dos nove dias de festival, só tem três para se divertir. Nos outros está a trabalhar como voluntária no projecto KosmiCare, uma tenda no festival que dá apoio a quem tem más experiências com drogas. "Uma vez tive uma bad trip com LSD na Bélgica e passei muito mal", conta. "Demorei uma semana a recuperar." Depois desse episódio, a holandesa achou que devia ajudar quem passasse pelo mesmo. "É mais fácil recuperar quando não estás sozinha", diz.
"É na primeira noite, quando as pistas de dança abrem, que aparecem os primeiros casos", conta a psicóloga Constança Bettencourt, coordenadora do KosmiCare. "As pessoas são-nos trazidas pelos paramédicos, por bombeiros, amigos ou às vezes vêm elas próprias." O espaço, no recanto mais calmo do festival, tem vários compartimentos com um colchão e uma almofada. "Desde que alguém entra aqui num estado alterado, muitas vezes em sofrimento e com ataques de pânico e paranóia, é ajudado pelos nosso pessoal até se recompor", diz Constança. "Às vezes ficam cá uma noite inteira." Segundo a psicólogo, no festival "é fácil ficar fora de si". "Além do ambiente criativo, há um grande desgaste físico e psicológico accionado pelo calor, a música, a dança e poucas horas de sono."
Em 2008, perto de 200 pessoas estiveram na mãos da equipa do KosmiCare, que até esse ano se chamava Kiva. Quando se deu a despenalização da posse de drogas para consumo, em 2002, a organização do Boom Festival criou este espaço de "redução de danos", mas ainda com uma dimensão reduzida. Hoje, a equipa é constituída por 60 pessoas, entre psicólogos, psiquiatras, massagistas, homeopatas e voluntários. O Instituto da Droga e da Toxicodependência (IDT) também está presente através de um "acordo de cooperação". "A nós interessa-nos estar no sítio onde as pessoas usam drogas", afirma Luís Vasconcelos, psicólogo do IDT. "É preciso ter antenas não só para dar apoio às pessoas que estão a ter más experiências, como também para ir sabendo das novas substâncias que aparecem."
Em frente ao Dance Temple, a pista principal do Boom, funciona um laboratório que avalia a pureza das drogas dos festivaleiros. "Muitas pessoas consomem substâncias ilícitas, mas não sabem o que estão a tomar e isso traz riscos acrescidos", diz Filipa Santos, coordenadora do projecto de redução de danos Check-in, promovido pela Agência Piaget para o Desenvolvimento. "Por exemplo, alguém comprou MDMA, experimentou e obteve efeitos mais parecidos com a cocaína. Nós recolhemos a amostra e analisamos para perceber se tem MDMA e outros adulterantes." Em 2008, foram testadas 303 substâncias pelo grupo espanhol Energy Control, a mais comum (47% das vezes) foi MDMA, seguida por LSD (15%).
O Check-in estacionou também uma carrinha pão-de-forma Volkswagen no recinto. À porta distribuem-se preservativos, palhinhas para inalar drogas e cartões brancos para filtros de charros. "As palhinhas são para evitar que as pessoas partilhem tubos e usem notas, que andam pelas mãos de toda a gente", explica Filipa. "Damos também outros conselhos: picar muito bem a substância antes de snifar, não usar sempre a mesma narina e lavá-la com água ou soro."
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