A única diferença entre a derrota com o Nacional (sábado) e as outras que o Benfica já teve esta temporada (FC Porto e Académica, para falar apenas nas oficiais) foi que desta vez Jorge Jesus atribuiu finalmente culpas a Roberto. Não todas, mas algumas. É impossível disfarçar esta evidente tendência do espanhol para sofrer golos injustificáveis e, agora, a tenda da crise está armada. O Benfica não começava um campeonato desta forma há 58 anos e tudo está em causa, tudo mesmo, desde o guarda-redes dos 8,5 milhões de euros ao momento de forma da restante equipa, desde a adaptação dos reforços à actuação da SAD no mercado.
Atenção, este é o mesmo Benfica em que o presidente e o treinador, há umas semanas, viam condições para a aventura europeia, quem sabe para uma vitória na Liga dos Campeões. Este é o mesmo Benfica que o próprio Luís Filipe Vieira definiu como o mais caro (e por isso ambicioso) de sempre. Mas esta é a equipa que sofre golos de bola parada como não se lhe via na época passada, é o ataque demolidor de 2009/2010 que em três jogos oficiais só marcou dois golos. Tudo por causa de Roberto? Não. O espanhol não acerta uma mas o i lança as outras razões que fazem soar o alarme no Estádio da Luz:
DEFESA E BOLAS PARADAS Na época passada o Benfica sofreu apenas seis golos de bola parada. Agora, ver a bola entrar dessa forma é o pão nosso de cada dia. A equipa está frágil e para os especialistas não há dúvidas: quem sofre golos de bola parada só pode ser uma equipa relaxada, sem capacidade de concentração nos duelos individuais. Camacho, o espanhol que treinou as águias, dizia que era necessária uma tensão positiva, um estado de alerta permanente em que cada um tinha de vencer a sua guerra. "É como se estivéssemos a defender a nossa casa, a nossa mulher e os nosso filhos; na nossa casa ninguém pode entrar." Para já, na defesa do Benfica toda a gente entra. O último pecador foi Cardozo - deixou Luis Alberto cabecear à vontade no primeiro golo do Nacional.
O MERCADO FRUSTRA É estranho que a equipa chegue a este ponto quando os jogadores são praticamente os mesmos. O que é diferente então? Em primeiro lugar, os momentos de forma. Luisão e Cardozo são dois exemplos de quem ainda não está no ponto, muito provavelmente porque têm a preparação atrasada em virtude da presença no Mundial. No caso do brasileiro, a falta de velocidade quase o torna banal, como provou Varela no jogo da Supertaça. Luisão voltará ao seu ritmo - aliás, volta sempre - e eventualmente será até capaz de ultrapassar a sua outra fraqueza, a do crónico desejo de saída do Benfica. Este ano, mais uma vez, o internacional aterrou em Lisboa a mendigar uma transferência para o estrangeiro, como se o Benfica não lhe tivesse renovado contratos e aumentado o salário em consequência das crescentes responsabilidades na equipa. Luisão, o capitão, ainda não tem a cabeça no lugar - lembra-se do cartão amarelo escusado no último jogo? - e talvez acalme a partir de 1 de Setembro, quando fechar o mercado de transferências. E talvez Cardozo lhe siga o exemplo, lembrando-se que para já só lhe reconhecem capacidades goleadoras em Portugal.
O MERCADO... Se uma transferência falhada pode redundar em muitas noites mal dormidas, duas transferências fechadas podem dar um ano de pesadelo. Ramires e Di María lá foram à respectiva vidinha no Chelsea e no Real Madrid e deixaram dois buracos inesperados no plantel. Onde está agora a rotação e a invenção no meio-campo do Benfica? Pois é, resume--se a Aimar, o único 10 de uma grande equipa a quem se admite não ser constantemente um dos melhores em campo. Aimar está bem longe de fundamental - como aliás já mostrou na época passada - e como nem Amorim, nem Carlos Martins nem o reforço Gaitán têm a qualidade, o perfil ou o tempo para liderar a equipa, o Benfica anseia por alguém que lhe reinvente a capacidade ofensiva. Será Salvio o salvador? Se for, será sempre um plano B que chega depois de uma Supertaça e seis pontos perdidos.
E AGORA, O DINHEIRO? Após duas jornadas da Liga, o Benfica está então nessa fase do plano B, numa dependência pelo mercado de todo inesperada, especialmente quando se apontavam as contratações precoces de Gaitán e Jara como capazes de resolver eventuais saídas. Está visto que os perfis dos reforços não batem com os de Ramires e Di María. O problema agora é que o Benfica já gastou 32,4 milhões de euros e não tem a mesma agilidade no mercado. Pior, depois de bater verbas astronómicas (8,5 milhões por Roberto, mais seis milhões por Rodrigo), a SAD inflacionou o mercado, cotou- -se como boa pagadora e ninguém lhe cede negócios de borla. Wesley, o "novo" Ramires, assinou pelo Werder Bremen depois de Luís Filipe Vieira tentar contratá-lo. Agora, até final de Agosto, vão desfilar os nomes - Drenthe (holandês do Real Madrid) e Wendel (brasileiro do Bordéus) chegam-se à frente.
E POR FIM, A TÁTICA Venha o que vier, alguém sabe como vai adaptar-se? E depois, como se adapta o Benfica, qual será a táctica? De equipa dominadora do futebol português, na época passada, com um 4x4x2 tão evidente quanto eficaz, Jorge Jesus não sabe se terá jogadores para ganhar nesse sistema, daí as suas derivações para um 4x3x3 que por enquanto não lhe garantiu nada. Salvio será o extremo para a direita? Gaitán continua na esquerda? Coentrão é lateral ou defesa? Se é defesa, qual a razão de a SAD estar no mercado a tentar Traoré? As respostas seguem no próximo fim-de--semana, contra o Vitória de Setúbal - às vezes basta uma vitória para resolver todos os problemas. Será?




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