Viswanathan Anand. Índia delira por causa do seu campeão de xadrez, e até por causa do jogo

Publicado em 21 de Agosto de 2010   
Campeão mundial pela primeira vez em 2001, o indiano, de 40 anos, anda sempre acompanhado por quatro seguranças
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As raparigas reunidas no auditório da escola, num sábado recente, estavam radiantes de orgulho e nervosas com a expectativa. Em breve iriam conhecer a estrela dos seus sonhos: Viswanathan Anand.

"Quero ser o próximo Vishy", declara Chetna Karnani, 16 anos, referindo-se a Anand pela sua alcunha. "Pratico quatro horas por dia." Anand não é nenhum galã de Bollywood ou um cantor pop. O ídolo que fez delirar as raparigas é um despretensioso campeão de xadrez de óculos com 40 anos.

Anand, que deteve o título mundial durante três anos, parece ter merecido a fama que a Índia reserva habitualmente para as estrelas de cinema, jogadores de críquete e políticos. As raparigas vieram à escola num sábado na esperança de jogar uma partida com ele.

Quando chega com um séquito de quatro guarda-costas para o proteger da multidão, as alunas, fascinadas, procuram timidamente, obter o seu autógrafo e assaltam-no com perguntas acerca da sua última partida para o título, contra o búlgaro Veselin Topalov.

Os historiadores dizem que o xadrez tem as suas raízes nos antigos jogos indianos de chaturanga e shatranj, antes muito populares na Índia. Porém, o xadrez nunca conquistou a Índia moderna. Anand é o primeiro indiano a alguma vez ter ganho o título mundial.

No entanto, o êxito de Anand - foi campeão mundial júnior aos 17 anos e conquistou o seu primeiro título mundial aos 31 anos - criou uma vaga de entusiasmo pelo jogo. Amit Varma, um popular bloguista indiano, compara o seu impacto com os muitos adeptos que Bobby Fisher obteve para o xadrez nos Estados Unidos quando derrotou o grande mestre russo Boris Spassky em 1972. "Enquanto escrevo estas palavras, no dia a seguir à sua vitória, os jornais e os canais de televisão não param de falar nele", escreveu Varma depois da recente vitória de Anand sobre Topalov, numa coluna no Yahoo! Índia. "O xadrez, de forma surpreendente, pode estar a caminho de tornar-se num desporto de multidões na Índia."

Anand usou a sua fama para promover o jogo na Índia, patrocinando uma rede nacional de clubes de xadrez como o do liceu de Karnani, a Escola Internacional Sadhu Vasvani para Raparigas, no Sul de Deli. Os responsáveis estimam que os clubes, que são administrados por uma empresa de educação indiana, a NIIT, tenham arregimentado 850 mil estudantes.

Anand e a NIIT, que comercializa tecnologia e programas curriculares para as escolas, espera chegar aos 5 a 10 milhões de estudantes nos próximos cinco anos. Ao contrario da rede organizada de academias de xadrez que a União Soviética criou para dominar o jogo, os clubes geridos pela NIIT são relativamente informais e foram planeados para ser uma actividade extracurricular.

O objectivo, diz Anand, não é produzir mais grandes mestres ou campeões indianos, embora ele reconheça que têm um potencial efeito secundário. Em vez disso, ele quer que os jovens se interessem pelo xadrez como uma ferramenta para melhorar a sua capacidade de concentração, análise e ponderação. "Ficaremos muito felizes se produzirmos campeões de xadrez", afirma. "Mas o que queremos é criar campeões da mente."

Como parte do programa, Anand viaja por todo o país para se encontrar com estudantes, jogar xadrez com eles e responder às suas questões. Participa também numa competição nacional anual entre escolas com clubes de xadrez NIIT e ensina os alunos que atingem as finais regionais e nacionais antes e depois das suas partidas.

No sábado em que visitou a escola Sadhu Vasvani, chegou com os seus guarda-costas e com a sua mulher e agente, Aruna, às 10 da manhã. Deu uma lição de xadrez de duas horas e respondeu a perguntas, para depois fazer uma partida simultânea com 30 alunas. Para compensar aquelas que não tiveram a sorte de jogar com ele, posou para fotos com elas, sorrindo sem jeito.

Da parte da tarde, participou num encontro para discutir se o xadrez ajuda ou não as crianças a melhorarem as suas faculdades mentais. À noite, foi homenageado num jantar organizado pelo ministro--chefe do estado de Nova Deli.

Anand, que aprendeu a jogar xadrez com a mãe quando tinha seis anos, aprimorou o seu dom desde cedo jogando num clube de xadrez na cidade de Chennai, no Sul da Índia, um baluarte antigo do jogo.

No carro que o leva da escola para o local onde se realiza a palestra, Anand diz ter ficado surpreendido pelo facto das estudantes, nessa manhã, terem sido capazes de perguntar e responder com detalhe a questões sobre as jogadas que levaram à sua vitória sobre Topalov em Maio. "Antes, era preciso ir a um clube de xadrez para obter tal nível de interacção", afirma. "Agora, ele já existe no sistema escolar."

Exclusivo i

The New York Times



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