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Hoje há livros grátis em Lisboa. O último a chegar é um ovo podre

por Diana Garrido, Publicado em 21 de Agosto de 2010   
O autor do blogue "O Bibliotecário de Babel" vai dar mais de 500 livros. Corra, corra
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Hoje há livro grátis para quem aparecer no Miradouro do Monte Agudo, em Lisboa, entre as 10h e as 12h30. Não vão cair de aviões, até porque isso poderia resultar em mazelas, nem são obras lidas e relidas de páginas amarelas atacadas pelo bicho do papel. São livros novinhos em folha oferecidos por José Mário Silva, crítico literário do jornal "Expresso" e criador do blogue "Bibliotecário de Babel". É que José Mário Silva tinha um problema. Um não: entre oito e dez mil pequenos problemas cheios de páginas. Sala, quartos, marquise, cozinha cheias de livros do chão ao tecto. Nem as duas casas de banho são excepção. Em casa do crítico há, literalmente, livros por todo o lado. "Já não dá para inventar mais espaço. Para novos livros entrarem, outros têm de sair. É uma espécie de escolha de Sofia", mas tem mesmo de ser", explica.

Quando falou com o i, José Mário Silva ainda estava a tirar os livros das estantes e a amontoá-los no chão de casa. Cerca de 500 já estavam prontos para mudar de casa, número que "provavelmente irá aumentar". Rapidamente, fazemos as contas e concluímos que 500 obras renderiam bom dinheiro, mas o crítico nem quer ouvir falar disso: "Uma parte significativa foi-me oferecida pelas editoras, há muitos anos que recebo livros, e não me ia sentir bem a ganhar dinheiro com uma coisa pela qual não paguei. Já ouvi falar de casos em que o fazem, mas acho isso muito mau e nunca seria capaz de o fazer. A verdade é que não tenho muito jeito para o negócio." No entanto, parte dos livros que vai oferecer foram mesmo comprados por José Mário Silva. A ideia é simples: "Dar uma prova de gratidão aos leitores do meu blogue [www.bibliotecariodebabel.com], que me têm acompanhado ao longo dos anos e cada vez mais, com bastante fidelidade." Pelo caminho fica a certeza de "que os livros vão parar a leitores empenhados, que gostam verdadeiramente de livros", e a oportunidade de conhecer os leitores fiéis. E se pensa que não viver em Lisboa é desculpa para não comparecer a esta festa do livro, fique já a saber que várias pessoas de fora de Lisboa garantiram ao crítico que estarão presentes, incluindo um leitor assíduo de Aveiro. 

A escolha de Sofia "Vai custar-me separar-me de alguns livros, mas sei que vão ficar em boas mãos." A escolha das obras a oferecer não foi feita com recurso ao infalível método do um-dó-li-tá, mas a uma introspecção racional: "São livros que já li e não vou reler ou livros que não li, gostaria de ler mas objectivamente sei que não vai acontecer porque tenho centenas ou milhares à frente na minha lista de prioridades. Faz mais sentido que sejam dados a outras pessoas, que se calhar os lerão mesmo."

Os leitores mais incrédulos ou menos crentes na generosidade alheia poderão pensar que se trata de livros mais fracos. José Mário Silva garante que, apesar de não ter novidades, que é como quem diz obras deste ano, tem "muitos livros de 2009" e que "90% das obras são muito boas".

Livros digitais Apesar de não parecer, dada a falta de espaço em casa para mais livros, o crítico é adepto dos suportes de leitura digitais e orgulhoso proprietário de um Sony Reader. Além das questões profissionais (por vezes recebe livros em formato PDF quando a obra ainda não existe em papel), pensou que o ebook "seria uma vantagem nas férias, que iria diminuir a bagagem", mas enganou-se: "Levava três ou quatro livros no Sony Reader, mais os 10 ou 15 do costume. No entanto acho que no futuro os ebooks vão ser bons, não tanto para pessoas como eu, que gostam muito do objecto livro, mas sobretudo para quem se interessa só pelo texto."

Não há limite de obras por pessoa, apenas bom senso. Não vale chegar numa carrinha de caixa aberta, pronto para carregar livros como se fossem caixotes de fruta. No máximo, um carrinho de mão.


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