especialista medialecto
A importância da rigorosa selecção vocabular
por Mário Pinto, Publicado em 20 de Agosto de 2010
Se o discurso jornalístico não pode ser um produto asséptico, resultante de esterilizadas operações laboratoriais, outrossim não poderá, em circunstância alguma, ser pasto fácil dos prosélitos do medialecto. E para obviar a situações confrangedoras basta que o jornalista mantenha presente a advertência de Dovifat (1960): "Aquele que se disponha a escrever num periódico tem, antes de mais, que cuidar de fazer a leitura interessante e atractiva." Alerta que, amiúde, não é tido em consideração, como estes exemplos demonstram à saciedade:
1. "Um golpe profundo na cabeça é a causa mais visível da agressão" ("JN", 04/07) 2. "poderia fazer parte da nova campanha [...], cujo objectivo é desmarcar-se dos concorrentes" ("DE", 08/07) 3. "os agentes são aconselhados a meter baixa [...] para distrair os problemas" ("JN", 10/07) 4. "A quebra de receitas com origem na chamada ''descriminação positiva'' está estimada" ("Expresso", 17/07)
Ilação irrefutável a tirar deste conjunto é não ter o leitor apressado dos tempos coevos inteligido nenhuma das frases transcritas e, ipso facto, não ter ficado informado, pretensão legítima mas inviabilizada por factores que lhe são exógenos. Culpa de quem, então? Só imputável ao jornalista que não procedeu à rigorosa triagem do vocabulário a usar, daí resultando, mais do que meros quiproquós, o despautério materializado em adulterações que nada têm de anódino. Por redundarem em prejuízo do leitor que, destarte se vê no imperativo de ter de efectuar exercícios de descodificação imprescindíveis para chegar ao que devia ser de intelecção imediata.
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