INOV Lá fora
Metade dos estagiários é convidada a ficar no estrangeiro
por Cláudia Garcia, Publicado em 19 de Agosto de 2010
Todos os anos Portugal garante a 500 jovens alimentação, estadia e um estágio de seis meses lá fora. "Aproveitem"
"O país que precisa de nós empurra-nos para fora". Inês Silva, 25 anos. "Em Portugal não há emprego. E através dos impostos das outras pessoas temos a oportunidade de vir trabalhar para fora. Temos de aproveitar". Alfredo Ancede, 30 anos. "A AICEP proporciona uma oportunidade aos jovens para sair do país". Vera Peneda, 30 anos. A opinião de alguns dos jovens que participaram no programa de estágios internacionais Inov Contacto, e não regressaram ao país, revela que a vida pós-estágio passa cada vez mais por ficar longe de Portugal. De acordo com a Agência de Investimento e Comércio Externo de Portugal (AICEP), responsável pelo programa, "nos últimos 3/4 anos, a média de convites após o final do estágio tem sido na ordem dos 50%, aceitando ficar cerca de 30%". O Inov é uma das soluções possíveis para os jovens procurarem saídas profissionais numa altura em que, conforme o i noticiou ontem, o número de jovens empregados em Portugal é hoje metade do que era há dez anos.
Por essa razão, jovens licenciados com menos de 30 anos lutam cada vez mais por um passaporte para o estrangeiro. E o Estado incentiva. Desde a primeira edição, em 1997, o número de vagas cresceu de 99 para 550 este ano. Portugal financia estes jovens que, durante seis meses, vão viver e trabalhar para um país estrangeiro. A remuneração varia entre 1640 e 2040 euros mensais, dependendo do custo de vida calculado pela ONU para o país.
A maioria dos estagiários contactados pelo i admitiu ter procurado uma oportunidade para continuar no país onde foi colocado. Porquê abandonar Portugal? As dificuldades para construir uma carreira e o nível médio de ordenados, inferior à União Europeia, são os principais motivos. Entre os que voltam, as razões variam, mas são maioritariamente pessoais.
Tiago Pereira faz parte dos 50% que tiveram ofertas para continuar, mas não integra o leque dos 30% que aceitaram. Tem 22 anos, e depois de uma aventura de seis meses no Dubai regressou a Portugal, em Junho. "A questão é ser o Dubai. Não tenho vontade de lá voltar. O país é desinteressante e não oferece nada." Satisfeito com o programa, a empresa e o estágio, o recém-licenciado em Multimédia e Audiovisual está à procura de emprego em Portugal. "O meu estágio foi numa empresa portuguesa de grafismo e software para televisão. A experiência foi fantástica." Apesar da insistência da empresa, Tiago não vai voltar atrás: "Já me ligaram, melhoraram a proposta, mas vou mesmo tentar encontrar emprego em Portugal, na minha área ou até em jornalismo." A AICEP assegura que a esmagadora maioria dos estagiários tem uma oferta de trabalho após a conclusão do programa. "Cerca de 80%." Mas até ao momento, Tiago ainda não recebeu nenhuma oferta.
Um dos aspectos a melhorar no programa, segundo os participantes ouvidos pelo i, é o período de duração do estágio. "Seis meses é o tempo que qualquer pessoa precisa para se ambientar ao país e à empresa, e só depois pode encontrar uma experiência", explica Vera Peneda, que realizou o estágio na agência Lusa em Pequim, onde trabalha, agora como editora do jornal "Global Times". A jornalista só está descontente com o facto "de a entidade de acolhimento não ter qualquer responsabilidade na bolsa".
Também Inês Silva, colocada num hotel em Maputo, Moçambique, assegura que, se a entidade de acolhimento tivesse uma pequena participação no ordenado haveria mais responsabilidade sobre o estagiário. "A empresa devia pagar uma parte mínima, 15% ou 20%, para evitar o tipo de situações em que em não dão qualquer trabalho ao estagiário."
Sobre estas sugestões dos participantes, a AICEP não vê necessidade de alterar a duração do estágio. "Havendo que rentabilizar custos, tendo em conta a actual conjuntura, foi decidido que seis meses são suficientes", sublinha. A agência também desvalorizou o facto de alguns estagiários ficarem descontentes pela falta de atribuição de funções nas empresas onde são colocados. "Podemos afirmar que representam menos de 1% dos casos. Todas as situações são minuciosamente avaliadas e quando se conclui que de facto o estágio não está a corresponder, transferimos o estagiário para outra entidade." Foi o que aconteceu a Alfredo Ancede.
O engenheiro agrónomo do Porto ficou colocado numa empresa de bioenergias, mas ao contrário do que pensava, o seu trabalho não era em Maputo, mas sim numa vila chamada Inhaminga no distrito de Sofala. "Tinha de fazer um ensaio sobre transição de biodiesel, que correu mal", conta. Alfredo contactou a AICEP e conseguiu a transferência para a capital. "Tinha mais cinco meses e não queria desperdiçá-los." Quando regressou, acabou por conquistar um lugar numa das maiores empresas do país no ramo da agro-indústria. E em Abril, dois meses antes do final do estágio, chegou a tão esperada proposta. Hoje é um dos directores comerciais. "Em Portugal só conseguiria este cargo com uma grande cunha", critica. O balanço final do programa é positivo, mas aponta senãos ao processo de recrutamento. "Conheci jovens do Contacto, em Maputo, que não sabiam ler nem escrever."
As inscrições para a nova edição do programa estão a decorrer, e há mais 550 vagas. O engenheiro pede uma selecção mais criteriosa. "Estamos todos aqui pagos pelos impostos dos portugueses", afirma. A organização do programa garante que o processo de selecção é muito rigoroso, admitindo porém que "alguns jovens não correspondem quer em atitude, quer em competências ao pretendido".
Três por um cinco estrelas Inês Silva, a nutricionista de 25 anos que antes de rumar a Maputo se dividia por três empregos, para receber cerca de mil euros por mês, é hoje uma das principais responsáveis pelo controlo de qualidade do serviço de um hotel cinco estrelas na capital de Moçambique. "Despedi-me dos empregos e concorri ao Contacto em busca de melhores oportunidades." Desde Janeiro que tinha em mente um único objectivo: "Tentar tudo para ficar." A jovem não pensa, para já, num regresso a Portugal, ciente das "grandes dificuldades em encontrar emprego". Mas a sensação sobre o país africano é outra: "Está em crescimento, as oportunidades são melhores e aqui sinto-me mais útil do que no meu país".
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