visto de fora
O islão em dois Estados Unidos diferentes
por Ross Douthat, Publicado em 17 de Agosto de 2010
O lado constitucional dos EUA tem estado em conflito com o seu lado cultural. E a construção de uma mesquita no Ground Zero está a aumentar a tensão entre os dois
Há uns EUA onde não importa a língua que se fala nem o deus que se venera ou a profundidade das raízes lançadas no Novo Mundo. Uns EUA em que a fidelidade à Constituição é mais forte que as diferenças étnicas, as barreiras linguísticas e as divisões religiosas. Uns EUA em que o recém- -chegado mais recente não é menos cidadão que um descendente dos primeiros peregrinos puritanos. Mas há também outros EUA, que vêem em si próprios uma cultura distinta e não apenas um conjunto de sensibilidades políticas. Estes EUA falam inglês e não castelhano, mandarim ou árabe. Revêem-se numa herança religiosa bem determinada: na origem, o protestantismo; depois um consenso judaico-cristão que acomodou judeus e católicos. São uns EUA cujas normas sociais derivam dos hábitos da diáspora anglo--saxónica e que esperam que os recém-chegados as assimilem, e bem depressa.
Estas duas facetas dos EUA, uma constitucional e outra cultural, têm vivido em tensão ao longo da nossa história. E estão em tensão outra vez este Verão, a propósito da controvérsia sobre a mesquita e centro cultural islâmicos cuja construção está prevista para dois quarteirões a seguir ao "ground zero", o local onde existiam as torres gémeas.
Os primeiros EUA, previsivelmente, encaram o projecto como a expressão dos altos ideais do nosso país. "Os Estados Unidos são assim", afirmava o presidente Barack Obama a semana passada, "e o nosso empenho na liberdade religiosa tem de ser inquebrantável". A construção da mesquita, disse o presidente da Câmara, Michael Bloomberg, aos seus conterrâneos nova-iorquinos, é talvez o maior teste aos princípios de liberdade religiosa "que nos será dado ver durante as nossas vidas".
Os outros EUA declaram-se de opinião contrária. Vêem o projecto como uma afronta à memória do 11 de Setembro e uma falta de respeito pelos valores de um país onde o islão só recentemente se tornou parte da consciência colectiva. Subjacente a essas considerações paira a negra suspeita de que o Islão, qualquer que seja a sua forma, é incompatível com o "estilo de vida americano".
O presente confronto de pontos de vista é típico do desenrolar normal deste tipo de debates. Os primeiros EUA tendem a produzir os discursos de mais fino recorte; os segundos dão muitas vezes uma nota mais crua e xenofóbica. Os primeiros EUA acolheram bem os pobres, as massas anónimas; os segundos exigiram que os elementos dessas massas mudassem os seus nomes (e muitas vezes os apelidos) e abandonassem as suas línguas de origem, tendo frequentemente erguido entraves à sua entrada. Os primeiros EUA pugnavam pela liberdade religiosa; os segundos perseguiram os mórmones e discriminaram os católicos.
Mas ambos os pontos de vista deste país têm muita sabedoria para oferecer e ambos foram necessários para o êxito da experiência estado-unidense. Durante as grandes vagas de imigração do século xix, a insistência para que os recém-chegados se adaptassem à cultura anglo-saxónica - e a ameaça de discriminação se não o fizessem - foi essencial para a rápida assimilação dos imigrados. As restrições à emigração instituídas após 1920 foram, em muitos aspectos, draconianas, mas conseguiram que as divisões étnicas persistentes se diluíssem num "americanismo" unitário.
O mesmo se passou com a religião. A pressão constante para que os imigrados assimilassem as normas dos EUA, exercida a bem umas vezes à força outras, acabou por convencer os mórmones a abandonarem a poligamia, o que facilitou a sua integração. As preocupações em relação às tendências antiliberais do catolicismo levaram os católicos dos EUA a influenciar a sua igreja em direcção a um reconhecimento das virtudes da democracia, tornando possível que gerações sucessivas de imigrantes se sentissem, inequivocamente, católicos e estado-unidenses.
Assim é hoje com o islão. Os primeiros EUA têm razão em insistir que os muçulmanos têm absolutamente o direito de construir e de orar onde quiserem. No entanto, os segundos EUA têm razão em exigir aos muçulmanos dos EUA (sobretudo de personalidades como Feisal Abdul Rauf, o imã que está a promover a construção da mesquita) mais do que simples protestos de boa-fé.
Muitas vezes, demasiadas vezes, as instituições muçulmanas dos EUA têm-se revelado associadas a ideias e imiscuídas em grupos que a maioria dos estado-unidenses considera para lá do aceitável. Demasiadas vezes, os dirigentes muçulmanos dos EUA foram ambíguos quando se lhes pediu que se dissociassem completamente de causas antiliberais.
A nível mundial, Rauf pode ser um exemplo de "muçulmano moderado". Mas os padrões mundiais e os padrões dos EUA não são os mesmos. Para que os muçulmanos dos EUA se integrem completamente na vida nacional precisam de dirigentes que não apodem os EUA de "cúmplices do crime" do 11 de Setembro (como fez Rauf pouco depois dos ataques de 2001) e que não se esquivem a perguntas sobre se os grupos como o Hamas devem considerar-se terroristas (como Rauf fez numa entrevista de rádio em Junho). E precisam de dirigentes com suficiente sensibilidade para reconhecerem que os anseios de diálogo inter-religioso não ganham com a construção de uma mesquita de grande projecção a dois quarteirões do local onde foi cometido um assassínio em massa em nome do islão.
Por outras palavras, precisam de dirigentes que percebam que, embora os ideais dos EUA-1 protejam o e pluribus, são as exigências dos EUA-2 aos recém-chegados que ajudam a criar o unum.
Escritor, bloguista e editor de opinião do "The New York Times"
Exclusivo i/The New York Times
Tem mais informações sobre esta notícia?
Conte a sua história. Seja um iRepórter.
Artigo: O islão em dois Estados Unidos diferentes
Actividade em ionline