PIB. Orçamento inclui eventual recessão no segundo semestre

por Luís Reis Ribeiro, Publicado em 16 de Agosto de 2010   
Previsões do governo para a economia acomodam uma recessão grande no segundo semestre deste ano
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O desempenho da economia portuguesa no primeiro trimestre dá uma folga significativa ao Orçamento do Estado (OE) deste ano, permitindo mesmo acomodar uma nova recessão da economia na segunda metade de 2010, ditada pelos efeitos prejudiciais da política de corte no défice público e pelo arrefecimento dos parceiros comerciais da economia portuguesa.

O governo está a trabalhar com uma previsão de crescimento de 0,7% para este ano (a que vinha no OE aprovado em Janeiro, e igual à do Relatório de Orientação da Política Orçamental de Julho), um número que será alcançado com relativa facilidade tendo em conta que a economia cresceu 1,8% no primeiro trimestre deste ano e 1,4% no segundo.

Segundo cálculos do i, mesmo que o produto interno bruto (PIB) caísse numa nova recessão na segunda metade deste ano (com duas quedas trimestrais consecutivas na ordem de 1%), o governo conseguirá manter válida a previsão de 0,7% relativa a 2010 e sobre a qual construiu todo o Orçamento. E salvar as estimativas de receita fiscal que costumam acompanhar a actividade.

João Duque, professor de Economia do ISEG, referiu, em declarações à Lusa, que "se não houvesse absolutamente crescimento nenhum no PIB nos próximos dois trimestres, também se conseguiria obter uma taxa de crescimento de 0,8%".

Mas, melhor do que isso, o Orçamento está feito para aguentar com uma recessão. Caso a economia resista melhor aos efeitos das medidas de redução do défice público e ao abrandamento dos seus principais parceiros internacionais, a previsão do governo pode ser facilmente alcançada.

Esta vantagem no cenário macroeconómico é um trunfo importante para o governo. Na rentrée política, o maior partido da oposição, o PSD, já veio ameaçar o executivo que não o apoiará em mais aumentos de impostos (como fez no último Programa de Estabilidade e Crescimento). Se o governo tiver - como parece ter - alguma folga no Orçamento, dependerá menos da negociação política com o PSD para cumprir o objectivo de redução do défice: a promessa feita a Bruxelas e aos mercados internacionais é cortar de 9,4% do PIB em 2009 para 7,3% este ano, conseguindo chegar aos 3% exigidos pelo Pacto de Estabilidade em 2012, um ano antes do previsto.

Segundo semestre complicado Filipe Garcia, da consultora IMF, diz numa nota que "o valor de 0,9% previsto pelo Banco de Portugal [para 2010] parece agora mais difícil de alcançar. Todos os indicadores mostram uma desaceleração económica global neste trimestre, o que contagiará a economia portuguesa."

De facto, a retoma de várias economias do grupo da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) está parada, mostra um estudo da instituição. Portugal é dos mais penalizados pelo agravamento da conjuntura, registando a terceira pior marca da zona euro em Junho.

O indicador avançado da OCDE mede as viragens do ciclo económico com meses de antecipação. Agora, os números da instituição mostram que a retoma foi curta e que, nos próximos meses, os portugueses serão confrontados com um agravamento da situação. Segundo a OCDE, na zona euro apenas França e Grécia registam quedas maiores que a portuguesa em Junho face a Maio.

Menos poder de compra, consumo e investimento e mais desemprego serão faces visíveis do ciclo negativo que se aproxima.


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