PRIMEIRO PLANO

Filantrocapitalismos

por João Rodrigues, Publicado em 16 de Agosto de 2010   
A percentagem de rendimentos captada pelos 1% mais ricos passou, nos EUA, de 8,95% do total, em 1978, para 20,95%, em 2008
Opções
a- / a+
Os milionários norte-americanos andam numa azáfama filantrópica de milhares de milhões de dólares. O sucesso dos seus negócios convence-os de que podem aplicar as fórmulas empresariais para resolver a questão social. Bill Gates e outros exibem a típica arrogância que o dinheiro concentrado e a adulação geram.

E, no entanto, parece evidente que, a existirem capitalistas milionários, é melhor tê-los filantropos. Acontece que escolher entre duas alternativas dadas não implica consentir com a estrutura que gerou escolhas tão limitadas.

O conhecido filantrocapitalista Warren Buffett afirmou, com realismo, que a luta de classes existe e que a sua classe a tinha ganho: num contexto de estagnação dos rendimentos das classes trabalhadoras, a percentagem de rendimentos captada pelos 1% mais ricos passou, nos EUA, de 8,95% do total, em 1978, para 20,95%, em 2008 (semelhante a 1929).

Um dos efeitos do filantrocapitalismo é o de legitimar as modificações estruturais, da desregulamentação ao enfraquecimento deliberado dos sindicatos, que geraram estas desigualdades económicas, uma das principais causas, segundo inúmeros estudos empíricos, dos problemas sociais: por exemplo, em 20 anos, os EUA passaram do 11.º para o 42.º lugar no ranking da esperança de vida.

Decidir sobre as prioridades socioeconómicas, como resultado de um debate democrático entre cidadãos, que escrutine os valores em disputa, é melhor do que deixar que as preferências dos mais ricos determinem cada vez mais, dentro e fora de fronteiras, os problemas que são considerados prioritários e os métodos para os enfrentar.

O estado indiano de Kerala é um exemplo para as regiões subdesenvolvidas, para as quais os filantrocapitalistas têm grandes planos. Um estado pobre, mas com alguns indicadores de desenvolvimento humano que rivalizam com muitos países ricos. O segredo? A mobilização política das classes subalternas. Uma sociedade civil activa e contra-hegemónica. Um estado governado durante décadas por uma coligação de esquerda.

Como indica a investigação na área dos determinantes sociais da saúde, não há melhor do que governos apostados na expansão dos serviços públicos e na redução das desigualdades: quanto maior é a percentagem da despesa pública nas despesas de saúde, melhores são os resultados nesta área. Construir infra-estruturas públicas coerentes é preferível à cooptação de técnicos e de recursos para esforços privados descoordenados, geralmente com boa imprensa, mas de eficácia não comprovada.

Precisamos também de instituições públicas internacionais bem financiadas, do relaxamento das patentes e dos direitos de propriedade intelectual ou da criação de oportunidades para o desenvolvimento, da reforma agrária ao proteccionismo comercial selectivo e temporário, este último exigindo modificações das regras do comércio mundial, feitas para cristalizarem as vantagens dos países desenvolvidos.

Confio mais na reforma das estruturas, impulsionada por movimentos políticos que integrem os grupos sociais interessados e geralmente subalternos, do que no esforço filantrópico que reflecte e reproduz abjectas hierarquias sociais.

Economista e co-autor do blogue Ladrões de Bicicletas (ladroesdebicicletas.blogspot.com)


Qual a sua reacção:
Tem mais informações sobre esta notícia?
Conte a sua história. Seja um iRepórter.

Notícia relacionada

Close