EDITORIAL
A recuperação sem empregos
por Manuel Queiroz , Publicado em 14 de Agosto de 2010
Há uma mini-recuperação da economia que ainda deixa em aberto muitas interrogações, até porque não cria emprego
Saíram números razoáveis de crescimento económico no segundo trimestre (0,2% face ao primeiro trimestre) e o governo começou logo o habitual concerto de comentários extasiados e vibrantes.
A verdade é que a recuperação a que se assiste - valha a verdade que em Portugal e em muitas outras economias avançadas - é aquilo a que alguns já chamam a recuperação sem emprego, porque o nível do desemprego continua elevadíssimo, seja qual for a comparação que se faça. E uma economia que não tem força para criar emprego estará sempre mais perto de andar para trás do que de conseguir tirar as preocupações aos cidadãos. E dos governantes, presume-se. Não vão longe os tempos em que o consenso dos economistas era que, para criar emprego, era preciso crescer a taxas próximas de 3%. Ora nos primeiros seis meses o país terá crescido, mesmo assim, 1,4%.
A zona euro cresceu 1%, inevitavelmente puxada pela Alemanha, com um aumento de 2,2% que os próprios alemães acham que está sobreavaliado com projectos que foram atrasados devido a um Inverno rigoroso. Foi o melhor trimestre da Alemanha desde a reunificação há 20 anos; França chegou aos 0,6 mas a Itália não saiu dos 0,4 e a Espanha empata connosco nos 0,2. E o indicador avançado da OCDE, que o i publicou esta semana, mostrava bem que os sinais são de que a economia, até ao fim deste ano, voltará à lentidão que a tem caracterizado desde 2007, influenciada em Portugal pelas medidas de austeridade que o governo tomou e que terão efeito maior na segunda metade deste ano de 2010.
Mesmo assim, com um euro mais baixo face ao dólar, as exportações têm campo para continuar a correr relativamente bem e isso é bom para Portugal, tal como o é o segundo trimestre consecutivo de crescimento positivo de Espanha, que é o nosso maior mercado.
Mas o problema hoje é o desemprego e o Banco Central Europeu recomenda, ainda assim, mais medidas para assegurar a flexibilidade salarial, porque a recuperação sustentada precisa de contas públicas muito mais sãs do que têm hoje a maioria dos países.
Ou seja, há uma mini-recuperação que ainda deixa muitas interrogações e perante a qual é preciso continuar a manter uma grande vigilância, basta ver o risco da nossa dívida. Estamos muito mais perto de França ou da Itália do que da recessão por que passa a Grécia, mas as boas notícias de que fala o primeiro-ministro são apenas, vistas no contexto real, meio boas notícias. É esperançoso porque fundado nas exportações, mas ainda não vemos a luz ao fundo do túnel.
O governo e o primeiro-ministro têm de gerir expectativas, que também contam muito na actividade económica. Mas já não demora muito a que se tenha de fazer contas certas para o Orçamento do Estado de 2011 e aí as coisas ficarão mais claras. Tal como as medidas de austeridade que a União Europeia nos deverá obrigar a reforçar.
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