Pedro Reis

"Os salários e os impostos estão 15% acima do que deviam"

por Filipa Martins, Publicado em 02 de Agosto de 2010   
Gestor e empresário, foi escolhido por Passos Coelho para coordenar o Livro Branco das empresas do PSD
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Defende a redução de impostos, de salários e a saída do Estado da economia através, principalmente, de privatizações. Pedro Reis nunca teve ligações partidárias e afirma que foi esse um dos motivos do convite do líder do PSD: "O facto de ser independente."

Como descreve o tecido empresarial português?

É como se fosse uma laranja dividida a meio. Por um lado, há sectores de ponta - a banca, as empresas de comunicação social, o turismo, toda a área de retalho. Também há empresas mais pequenas que encontraram um nicho e souberam trabalhar o seu valor acrescentado. Este é o lado bom da laranja. Depois, existem as outras empresas (a maioria) que têm vários problemas: sobreendividamento, empresas muito familiares, no sentido do amadorismo, e muito fechadas nos seus mercados. Mas o principal problema destes dois grupos tem a ver com o enquadramento geral.

A situação do país...

Se Portugal fosse uma família, o pai seria o défice orçamental (está viciado em receita e não assume o problema de se ir tratar e de reduzir a despesa pública). A mãe seria o défice externo (aquela senhora que está viciada em comprar ao exterior). Este casal deu três filhos: um filho balofo que é o endividamento, uma filha que ficou raquítica - a competitividade - e um terceiro filho que são os custos de contexto (falta de produtividade, endividamento das famílias, problemas da justiça, problemas do sistema educativo, etc.). O futuro passa pelo crescimento da filha competitividade, que está ensombrada pelo resto da família.

Como tem visto a política de captação de investimento externo ?

Por mais investimentos externos que o governo tente captar, os tais custos de contexto... com a carga fiscal absurda que temos, nunca vamos ter o investimento externo de que precisamos. O que eu defendo é que o Estado faça o seu trabalho: reduza, saia da economia e se concentre em deixar as empresas oxigenarem-se e investirem. Quando o Estado se mexe com uma pata de elefante pesadíssima, não só vai pedir impostos para alimentar esse enorme elefante, como também retira financiamento às empresas. O Estado deve preocupar-se com as questões soberanas, em reduzir o défice e deixar a economia para os privados.

Como?

Privatizando, primeiro. Depois acabando com golden shares.

De que áreas é que o Estado deveria sair?

Todas.

Reformulando: em quais é que se deveria manter?

Sim, é melhor fazer a pergunta ao contrário. Um bom programa de privatizações implica definir várias coisas: a primeira é que o Estado tem de ser um regulador forte. Se vamos entregar isto aos privados, o Estado tem de ter uma mão forte para quem prevaricar. Por outro lado, o Estado tem de salvaguardar a concorrência e a transparência dos mercados. Feito isto, não vejo razões para o manter em quase todas as empresas, para não dizer em todas.

É preciso reduzir impostos para ganhar competitividade?

Os impostos em Portugal, em média, estão 10% a 15% mais elevados do que deveriam estar. Aliás, como também é verdade a parte salarial: o país ganha de mais para o que produz. Isto é uma lógica insuflada tramada: como as pessoas pagam muito ao Estado, têm de ganhar mais para conseguir viver dignamente. Se compararmos com outros mercados - França ou Inglaterra -, percebemos que estamos a ganhar 10% a 15% a mais.

Quais são os novos mercados de exportação? Espanha e a Europa ficaram para trás.

Entrando no Brasil, está-se a cobrir todo o território da América Latina e fecha-se o triângulo com Angola. Mercados emergentes como a China surgem em número três e em número quatro, os Estados Unidos. Não acredito na Europa como destino, a Europa está em crise e, se quiser mais barato, vai comprar à China, se quiser melhor, vai comprar à Alemanha.

Foi convidado por Passos Coelho para coordenar o Livro Branco para as empresas. Como se vai desenvolver o trabalho?

Neste momento estamos a fazer convites a 60 empresários e gestores, a partir de Setembro arrancam três entrevistas por semana, nas quais estarei presente. No final de Fevereiro é apresentado o Livro Branco para as empresas e espero que dali possam sair ideias para o programa de governo do dr. Passos Coelho.


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