Volta a Portugal

Esta é a história de Bento Pessoa e de como se começou a pedalar em Portugal

por Mariana Pinheiro, Publicado em 02 de Agosto de 2010   
Há 125 anos o Hipódromo de Belém pôs os cavalos de lado e mostrou ao país os mais inovadores modelos de bicicletas. Foi a primeira competição de ciclismo em Portugal
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Século XIX. Meados dos anos 80. As carruagens apinham-se à entrada do Hipódromo de Belém. Descem dos assentos forrados a veludo parisiense, as figuras mais proeminentes da sociedade lisboeta. Entre eles, está Carlos da Maia, que veio ao Jockey Club assistir à famosa corrida de cavalos. Um estrangeirismo numa situação assim fica sempre bem, "é chique a valer", como diria prontamente Dâmaso Salcede. Eça de Queirós escreveu umas das mais críticas e brilhantes passagens da literatura portuguesa, mas estava longe de imaginar que o mesmo local que usara n''"Os Maias" serviria, anos mais tarde, para abrigar um acontecimento pioneiro em Portugal.

1885. O Real Ginásio Clube prepara a preceito um festival de atletismo que vai dar que falar. Os homens em cima das bicicletas escondem o nervoso miudinho em gargalhadas abafadas atrás dos bigodes farfalhudos - muito em voga naquela época. O tiro da pistola dá início à primeira competição de ciclismo em Portugal. Dividiram-se por escalões os diâmetros das rodas das bicicletas: menos de 48 polegadas, 52 polegadas e 54 polegadas, e ainda aquelas em que a roda dianteira é muito superior à de trás. Depois disso, houve ainda tempo para demonstrações circenses. A prova de habilidade determinaria quem era o concorrente mais completo, ou seja, o ciclista teria de efectuar um percurso de 100 metros sem pôr os pés no chão. Surpreendentemente ou não, ganhou Herbert Dagge, o principal promotor da corrida.

A jornada foi um sucesso e novas ideias, para aventuras semelhantes, brotaram como cogumelos. Nos anos seguintes o ciclismo português expande-se a olhos vistos. Era preciso subir o grau de exigência, o povo juntava-se nas bermas da estrada para ver a novidade passar. Desta vez a empreitada foi mais ambiciosa: um passeio de longa distância com o objectivo de ligar Lisboa e Porto. A prova durou 32 horas, numa média de 11 quilómetros por hora, com vários percalços pelo caminho. O arcaísmo das bicicletas e o mau estado das estradas, geralmente de terra e pedra, fizeram com que inúmeros pneus furados e rodas empenadas tivessem de ser urgentemente trocados. Os cães que corriam desconfiados atrás das bicicletas atirando, por vezes, os corredores ao chão, e a falta de civismo dos outros utentes das estradas, também não facilitaram a tarefa.

Dia 12 de Abril de 1897. José Bento Pessoa é olhado de canto pelos colegas espanhóis. Em cima de uma Raleigh, uma bicicleta de corrida a "cair de podre", está confiante que pode cortar a meta com ela inteira. Todos os outros apresentam modelos mais evoluídos. O jovem ciclista de bigode pontiagudo nasceu na Figueira da Foz, 23 anos antes da corrida que o consagrou como a primeira figura do ciclismo português. Os companheiros de corrida perdem-no de vista a meio do percurso e só o voltam a ver em Villacastín, a festejar a vitória com cinco minutos de avanço sobre o segundo classificado, Juan Sugrañes. Depois de um começo brilhante (recebeu 750 pesetas), o ciclista ganha mais de 70 corridas em Espanha e lança--se em diversas provas em solo português (Lisboa, Porto, Famalicão e Bucelas). As conquistas valem-lhe um convite para trabalhar na loja do lisboeta Manuel Beirão, representante das bicicletas Brennabor. Bento Pessoa foi o primeiro português a ser campeão em Espanha e um dos mais aclamados ídolos da Península Ibérica.


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