Tiago Forjaz. "Ter Cavaco Silva na Star Tracker foi bom e mau para a rede"
por Nuno Aguiar, Publicado em 31 de Julho de 2010
O headhunter e criador da primeira rede de talento portuguesa acredita que famílias e escolas não estão preparadas para reconhecer e extrair talento. "Cada vez é mais difícil sermos extraordinários", diz
Tiago Forjaz vive de analisar e desenvolver o talento dos outros. O gozo de que era alvo em criança por ser português na África do Sul motivou-o para criar a Star Tracker, uma rede de 32 mil talentos portugueses espalhados por 125 países. O Presidente da República também está lá - e por iniciativa própria. "Foi bom e mau para a rede", admite Forjaz, no seu escritório na Avenida da Liberdade, em Lisboa, onde recebeu o i. Coleccionador de arte contemporânea e apreciador de graffiti, Forjaz não é um geek, mas gostava de ser. Fumar charutos ajuda-o a reflectir e não passa sem a fotografia ou sem andar de skate com o filho mais novo ao fim-de-semana. Se pudesse mudar alguma coisa na sua vida, teria seguido Cinema em vez de Economia.
Com a taxa de desemprego perto dos 11%, a maximização das nossas capacidades é decisiva?
É evidente que sim. O modelo actual em que as empresas basicamente gerem risco na contratação, baseando-se na experiência e na formação da pessoa, está obsoleto. É preciso tornar visíveis as características que nos diferenciam. É assim que se pode combater o flagelo do desemprego: não contratar o Tiago Forjaz porque ele trabalhou em recursos humanos, mas porque é criativo e inovador.
O seu trabalho é procurar, avaliar e lidar com talento. Nunca tem inveja das pessoas que encontra?
Não. Cada pessoa tem o seu talento. Posso ficar inspirado, mas nunca senti inveja. Não gostava de ser outra pessoa. Vivo bem com quem sou. Tenho o privilégio de ver e viver muitas vidas.
Os conceitos transformam-se com rapidez. O de talento também foi mudando?
Estamos sempre a discutir a mesma coisa. Na génese, o talento é um poder intrínseco e inato que é universal e das coisas mais democráticas que existem no mundo, porque todos temos talento. O que pode ter mudado é como somos treinados para encontrar oportunidades e resistir à adversidade. Cada vez mais é mais difícil sermos extraordinários num mundo que é muito competitivo.
Como se pode então defini-lo?
Se perguntar a uma criança de sete anos o que é talento, ela vai dizer-lhe que é uma coisa que faz e de que gosta. Se lhe perguntar se tem talento, ela diz-lhe que sim e que toda a gente tem. Se lhe perguntar como é que sabe, ela diz-lhe que é fácil: é experimentar e é aquilo de que gosta. Se lhe perguntar qual é o talento dela, vai dizer-lhe "eu gosto de..." e não "o meu talento é..." O talento é composto por um conjunto de competências que é muitas vezes confundido com ser competente. Ser competente é aplicar o nosso talento para ele gerar valor. Competências são aquilo que compõe talento.
Não é angustiante saber que temos um conjunto de talentos limitado e existir uma grande probabilidade de lhes passarmos ao lado?
É evidentemente angustiante pensar nisso. A verdade é que nem as famílias nem as escolas estão treinadas para fazer a extracção daquilo que é o genuíno talento do indivíduo.
Como vê esta geração que procura entretenimento no trabalho?
Falamos numa nova juventude que não está disposta a fazer tudo pelo dinheiro, em parte porque os pais o fizeram e lhes disseram: "Não faças o que eu faço." Eles querem ter um propósito de vida. Sabem que há um patamar máximo de dinheiro, que a competição tem limites e que a colaboração é uma parte importante. Acho uma geração óptima e estou perante ela numa perspectiva muito mais de aluno que de professor.
Quando faz uma avaliação, tem preferência entre a competência técnica e o talento para as relações pessoais?
Por definição gosto de pensar que as pessoas com maior capacidade de interacção humana têm mais facilidade de resolver problemas, mesmo que acabem por não ser elas a resolvê-los. Tenho um enviesamento por quem tem uma inteligência mais emocional que propriamente um repositório de conhecimento.
O que é que uma pessoa tem de fazer para o impressionar numa entrevista?
É muito fácil: ser ela própria. Qualquer pessoa que seja genuína com ela própria me impressiona.
O subtexto importa? Estar solto, nervoso ou divertido?
Isso ajuda-me a criar melhores condições para que ela seja genuína. Para conhecer uma pessoa estou atento não só à linguagem falada, mas também à gestual, ao tempo, ao ritmo...
Parte do pressuposto de que conseguiu conhecer aquela pessoa na entrevista?
O meu trabalho é de radiologista: tiro uma radiografia. Mas o ser humano não é estático; é dinâmico. Tenho de partir de uma perspectiva estática e tentar extrapolar para a frente.
Há alguma coisa que tente sempre saber em primeiro lugar?
Sim, a história de vida das pessoas. Para recrutarmos uma pessoa não estamos a recrutar um conjunto de capacidades ou competências. O enquadramento familiar, social, é sempre extremamente importante. Gosto que as pessoas me contem a história da sua vida sintetizada para perceber quais são os grandes marcos, as grandes influências e o contexto de vida da pessoa até àquele momento.
Já sentiu que magoou a pessoa com a avaliação que fez?
Já houve quem tenha sofrido com aquilo que ouviu. A mudança implica que a pessoa tenha de consciencializar um conjunto de coisas e de resolvê-las para poder evoluir. Nalgumas circunstâncias pode comover-se, dizer uma coisa que nunca disse e, no processo de se ouvir, sucumbir a essa tristeza. Mas isso é essencial.
Parece quase o trabalho de um psicólogo...
Não é muito diferente. Hoje em dia temos "coaches", que não fazem mais do que disciplinar a performance do ser humano para o trabalho e para a vida.
Que papel têm desempenhado fenómenos como o YouTube?
Deram credibilidade à comunidade para dizer o que é talento, o que é algo muito interessante. Mas pode ser muito cruel. Todos sabemos que a Susan Boyle, apesar de ter gravado um disco, está num manicómio.
Consumimos tudo demasiado depressa, até o esgotarmos?
Sim, estamos um pouco canibais. Somos vorazes. Queremos tudo depressa e não temos paciência. Embora existam Madonnas que são capazes de se reinventar, há outros que não aguentam a pressão e são triturados nessa máquina.
Regressando ao talento, qual é o seu?
A conceptualização. Sou capaz de conceber, prever e comunicar. Sou um energizador, um mobilizador. Podia ter sido padre, político, advogado, escritor, realizador de cinema...
Realizador é a opção que ainda mexe mais consigo...
A única coisa que teria mudado na minha vida seria, na altura em que decidi estudar Economia, ter ido estudar Cinema.
Ainda hoje é um apreciador?
Sim, mas não um apreciador intelectual. A maior parte dos filmes de que gosto podem ser vistos num circuito comercial.
O que o entusiasma?
Conhecer pessoas, estar com pessoas, saber o que é especial nelas e o que as move. Como posso trazer um pouco de luz ou criar uma metáfora que a ajude a desbloquear-se.
E o que o desanima?
Pessoas que não querem ser tão boas como eu quero que eles percebam que são. Irrita-me porque fico com a sensação que estou a perder o meu tempo.
Acha-se uma pessoa especial?
Todas as pessoas são especiais. E eu não sou excepção.
Há quem não se reconheça como especial...
Não descobriram isso. Não foram mimadas para encontrar isso ou não tiveram a sorte de tropeçar nisso.
Onde é que a felicidade se encaixa no sucesso profissional?
Confúcio dizia algo do género: "Faz uma coisa de que gostas e jamais te pedirei que trabalhes." No entanto, resumir a felicidade ao trabalho mostra que confundimos vida e trabalho. O que é grave. A maior parte das pessoas com a idade dos nossos pais tem a consciência de que foi enganada. A partir dos nossos avós as pessoas confundiram o exercício de viver com o exercício de trabalhar. Se pudessem pedir fichas novas, jogariam o jogo da vida e não o da carreira. Felicidade é a capacidade de extrair reconhecimento do nosso trabalho, que é um sucedâneo do amor. Devíamos preocupar-nos mais com procurar o verdadeiro amor do que o reconhecimento.
Ainda em criança, na África do Sul, gozavam consigo por ser português. Isso motivou-o para fundar a Star Tracker?
Claro que teve a ver com isso: fazer erodir uma data de preconceitos que existem nas várias comunidades. Fui o "porra" e o "cabbage" [couve] na África do Sul. Em Madrid chamavam-me "Champas". No liceu de Paço de Arcos chamavam-me "africano". Se a minha vida puder ser dedicada às frustrações que senti, terei sido útil. Os meus pais não queriam que fosse para realizador. Na minha família não havia ferramentas para dizer o que é talento. Tenho estado a empreender coisas intrinsecamente ligadas a frustrações, mas que me estimulam.
Somos ainda um povo pequeno?
Somos pouco ambiciosos. Do ponto de vista da ambição, vivemos de uma certa castração. Somos um povo órfão. Somos esmagados pelo nosso legado, como se fôssemos os filhos de alguém muitíssimo conhecido.
Lidamos mal com o sucesso dos portugueses bem-sucedidos, como o Ronaldo ou o Mourinho?
Há uma relação dicotómica: quando achamos ser útil para o sucesso dessas pessoas, lidamos bem. Quando pensamos que somos dispensáveis ou irrelevantes já nos portamos mal. A verdade é que temos poucos representantes a nível mundial. O Ronaldo e o Mourinho carregam um piano enorme que é tocado pela nação toda. Ninguém aguenta essa pressão.
Como é que a Star Tracker concorre com o Facebook?
O Startracker não é uma rede social: os posts são longos; quem vai lá não vai para socializar, vai para aprender ou para encontrar um contacto que não conhecia. Ao Facebook não se vai para aprender; vai-se para saber o que se passa com os nossos amigos sem ter de telefonar. Não tem 500 milhões utilizadores, tem 30 mil. Onde é que a Star Tracker está a gerar valor? A estabelecer contactos preferenciais entre portugueses que estão lá fora ou querem ir para lá, por exemplo.
Cavaco Silva na Star Tracker foi bom ou mau para a rede?
Acho que foi bom e mau. Bom porque nos criou uma responsabilidade e uma inspiração. Somos a única rede social que tem o seu presidente envolvido. Foi mau por outro lado, porque isso foi rapidamente interpretado com uma conotação política, num projecto sem qualquer ambição desse género. Não fomos nós que convidámos o Presidente a associar-se.
Ideologias à parte, Cavaco Silva é um homem interessante?
Com a experiência de vida que ele teve é óbvio que sim. Quem é que pode pensar que o Alan Greenspan não é um homem interessante?
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Artigo: Tiago Forjaz. "Ter Cavaco Silva na Star Tracker foi bom e mau para a rede"
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