Carreira

À procura do primeiro emprego. Bolonha divide patrões

por Kátia Catulo , Publicado em 31 de Julho de 2010   
Os cursos tornaram-se mais práticos, mas os candidatos são mais imaturos
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Será um curso superior de três anos suficiente para um recém-licenciado competir no mercado de trabalho qualificado? É uma dúvida que inquieta boa parte dos empresários, professores e até ordens profissionais desde que o modelo de Bolonha entrou no ensino português, em 2006. Resta perceber se o comportamento dos empregadores portugueses também mudou perante o novo sistema que uniformizou as universidades europeias. No momento de decidir entre um candidato com licenciatura e um recém-licenciado com mestrado integrado, os directores dos recursos humanos dividem-se.

Entre um e outro, a Allianz Portugal admite preferir os jovens que completam a sua formação com mestrados integrados, embora em alguns casos também seleccionem candidatos com licenciaturas de três anos "numa óptica de desenvolvimento profissional", explica Telma Inácio, directora de recrutamento da seguradora sedeada em Munique (Alemanha). A empresa farmacêutica Bial assume desde logo que valoriza muito mais os mestrados, pós-graduações e até doutoramentos, mas isso acontece sobretudo porque pertencem a um sector que requer "grande especialização", esclarece José Redondo, administrador e director-geral da farmacêutica portuguesa.

Em contrapartida, a Sumol+Compal, a Unicre, e a Nestlé Portugal asseguram que não fazem qualquer distinção entre os candidatos com e sem mestrados. "O recrutamento incide mais no perfil do que no grau académico", conta Marta Penetra, do departamento de Recursos Humanos da Unicre. O factor decisivo para a Sumol+Compal será sempre a "capacidade e os conhecimentos" que o candidato revela ao longo do processo de recrutamento, explica José Paulo Machado, responsável pelo departamento Pessoas e Comunicação da empresa de bebidas e produtos alimentares.

O certo é que a maioria dos empresários tende a privilegiar os candidatos com graus de mestrados integrados, garante Carla Marques, directora da Tempo-Team, uma das principais empresas de recursos humanos em Portugal: "Boa parte dos empregadores tem ainda muitas incertezas quanto à qualidade de ensino após a introdução do processo de Bolonha."

O novo modelo tornou os cursos mais objectivos, mas trouxe também uma grande desvantagem, reconhecem os responsáveis dos recursos humanos consultados pelo i. "Os recém-licenciados saem muitos jovens das universidades e isso nota-se no plano da maturidade pessoal", defende Ana Gomes, da Nestlé. A duração das licenciaturas é menor e isso reflecte-se na atitude e na postura dos candidatos, que "revelam imaturidade na adaptação ao mercado de trabalho", diz Telma Inácio, da Allianz.

Melhor ou pior ensino? Perceber se Bolonha veio trazer melhor ou pior ensino é tarefa complicada para os empregadores portugueses. "Se por um lado os cursos têm uma base bastante mais prática - o que é atractivo para o mercado de trabalho -, por outro, a redução do tempo das licenciaturas não permite muitas vezes assimilar todos os conceitos transmitidos ao longo de três anos", diz a responsável dos recursos humanos da Unicre. A qualidade do ensino superior pode até não estar comprometida, mas Telma Inácio, da Allianz Portugal, está convencida de que houve uma perda na "abrangência e na generalidade do ensino", uma vez que em algumas áreas os professores deixaram de ter tempo para fazer contextualizações.

Os próprios alunos têm essa consciência e procuram também aprofundar a sua formação, optando por fazer mestrados ou pós-graduações, defende José Redondo: "Ao contrário do que se passava há alguns anos, hoje já é possível encontrar candidatos com formação e experiência a nível internacional."

A decisão de prosseguir os estudos parte dos próprios alunos pós-Bolonha, conta Marta Penetra, da Unicre. É a forma que os recém-licenciados encontraram de ficar no mesmo patamar que os que têm um percurso académico mais completo: "Uma boa parte dos nossos colaboradores decide continuar a formação após adquirir alguma experiência profissional, pois só depois de algum tempo conseguem identificar a especialização adequada ao seu caso."

Permitir uma especialização adaptada a cada aluno é a grande vantagem de Bolonha, mas será preciso ainda perceber se o mestrado é uma opção acessível a todos. José Redondo, da Bial, teme que uma boa parte dos alunos não consiga ir além de uma licenciatura de três anos. "O custo da maior parte dos mestrados não integrados é elevado para o nível de vida dos portugueses. Pode ser uma séria desvantagem deste modelo."


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