Conservação da natureza. Mais de 8000 infracções no primeiro semestre do ano

por Marta F. Reis, Publicado em 28 de Julho de 2010   
Hoje assinala-se o Dia Nacional da Conservação da Natureza. 1652 aves apreendidas de cativeiros ilegais e vários outros casos mostram que ainda há trabalho por fazer
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Os portugueses são os mais preocupados com a biodiversidade, dizem os estudos. Porém, também estamos longe de ser um exemplo da conservação da natureza.

São várias as iniciativas a marcar este Dia Nacional da Conservação da Natureza: no Parque Natural da Arrábida, um dia aberto vai levar turistas a conhecer a fauna e a flora ligadas desde cedo aos projectos nacionais de conservação da natureza - a Liga para a Protecção da Natureza, a associação mais antiga da Península Ibérica, nasceu depois de um famoso pedido de socorro do poeta Sebastião da Gama, em 1947, para que não cortassem a Mata do Solitário, hoje protegida. No Zoomarine, em Albufeira, vão ser devolvidos sete cágados à ribeira do Tôr. Em Porto Santo está preparada uma visita ao Ilhéu de Cima. Este dia foi instituído em 1998 em homenagem ao trabalho da Liga para a Protecção da Natureza.

Um Eurobarómetro publicado em Março mostra que os portugueses são os líderes de sensibilização na Europa, os mais preocupados com a perda da biodiversidade e quem mais admite já estar a sentir o impacto do desaparecimento de fauna e flora. São também, e desde o último estudo em 2007, quem juntamente com belgas e eslovenos se diz mais comprometido com a conservação da natureza. Ainda assim, o retrato possível, mesmo em dia de aproveitar as pausas para visitar o jardim mais próximo, não é tão verde quanto deixa antever o Eurobarómetro. Números do Serviço de Protecção da Natureza e do Ambiente da (Sepna) da GNR, analisados para o i, mostram que entre Janeiro e Junho deste ano foram registadas 8056 infracções relacionadas com a natureza, apenas uma ligeira melhoria em relação ao ano passado - foram 17 548 no total, 8774 por semestre.

Arborização ilegal com espécies de crescimento rápido, arranque ilegal de sobreiros e azinheiras (protegidos), detenção ilegal de animais ou caça e pesca ilegais são os maiores problemas. Os incêndios são outra fatia do bolo: em 2009 a área ardida chegou a 77 mil hectares, a maior dos últimos três anos. Para o primeiro semestre deste ano, os dados não são muito melhores: em 2521 investigações já efectuadas pelo Sepna, foram apuradas 552 fogos com causa intencional e 1119 por negligência. As queimadas são uma das causas mais comuns.

O lobo-ibérico, protegido pela legislação nacional desde 1988, serve de exemplo. Francisco Petrucci, coordenador do projecto de conservação Grupo Lobo, admite que continuem a ser capturados ilegalmente três a quatro animais por ano. Um dos projectos em curso passa por incentivar os pastores a usarem os chamados cães de gado, guardiões tradicionais dos rebanhos - até hoje já distribuíram 220. Ainda assim, além dos dez lobos no centro de recuperação no Gradil, perto de Mafra, a situação dos cerca de 300 que se estima existirem no país é precária. "Há muita coisa por fazer: envolver mais pastores no projecto, controlar a caça furtiva, e mais consideração na hora de grandes projectos de construção", aponta Petrucci. O impacto de novas auto-estradas e parques eólicos é uma das preocupações, bem como as novas barragens do Tâmega. Mas nem tudo são maus exemplos: "Na A24 e na A7 fizemos parte do grupo de monitorização e conseguimos que fossem construídas passagens de fauna de um lado ou outro da via", adianta.

José Grisante, director do Sepna, garante que, no caso do lobo-ibérico, a lei tem funcionado. "Não temos conhecimento de qualquer espécime capturado ou abatido ilegalmente", diz ao i. Os resultados, contudo, não são todos tão positivos. "Existem inúmeras espécies de aves e outros animais, que ocorrem no nosso país no estado selvagem, que são capturadas normalmente no estado juvenil e que depois são mantidas em cativeiro de forma ilegal", diz o responsável. Os casos não são pontuais: só no primeiro semestre deste ano já foram apreendidas 1652 aves e 111 outros animais, alguns trazidos de forma ilegal do estrangeiro. Aves exóticas, papagaios, catatuas, araras, cobras, primatas ou répteis são os mais comuns. "É certo que há muitas pessoas a cometer infracções contra a natureza e o ambiente. No entanto, a maioria tem a noção de que está a ter uma conduta ilegal, senão não a cometeria em locais isolados", resume José Grisante.

Mas como o dia é de festejar a conservação da natureza, acabamos com uma sugestão: se está de férias, pode aproveitar para alinhar nas diferentes actividades disponíveis e visitar projectos inovadores como o novo centro de reprodução de chitas no Jardim Zoológico de Lisboa, um dos únicos da Europa.


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