O défice de moralidade

por João Rodrigues, Publicado em 26 de Julho de 2010   
Em Portugal há um excesso de moralismo nos debates sobre a economia em geral e sobre as finanças públicas em particular
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Moralismo é o oposto de moralidade. Uma abordagem moral dos problemas económicos começaria por questionar os mecanismos económicos que produzem tão gritantes desigualdades nas capacidades dos indi- víduos para atingirem funcionamentos genuinamente humanos, para retomar os termos de Amartya Sen, bem expostos no seu último livro - "The Idea of Justice". A seguir proporia mudanças nas instituições de forma a remover as injustiças que causam sofrimento social evitável - desemprego num lado e horários de trabalho demasiado longos no outro, por exemplo.

Em vez disso, a abordagem moralista, com amplo eco televisivo, procura incutir o choque e o pavor, para depois avançar com uma agenda de regressão social com efeitos perversos naquilo que os indivíduos podem ser e fazer com as suas vidas. Esta abordagem é hipócrita, estreita e equivocada. É hipócrita porque os economistas que defendem reduções das despesas sociais, reduções dos direitos laborais e correspondentes cortes salariais tendem a acumular pensões e outras sinecuras públicas ou privadas. É estreita porque estes economistas falam como se os nossos problemas pudessem ser compreendidos fora dos problemas de uma zona euro totalmente disfuncional. E é, claro, equivocada: o Estado não é uma família e o estado das finanças públicas quase só depende do andamento da economia.

A abordagem dos balanços financeiros sectoriais ajuda a entender isto: a soma dos saldos dos sectores externo, público e privado, tem de ser igual a zero. Num contexto de crise, com o saldo do sector externo mais ou menos constante, é evidente que o esforço dos privados para reequilibrar os seus balanços, com cortes no consumo e no investimento, tem de gerar inevitavelmente um aumento do défice público. Inevitavelmente. Sabendo que o cenário macroeconómico aponta para uma redução necessariamente ligeira do défice externo, então o contraproducente esforço para reduzir o défice público tem como contrapartida um aumento do endividamento do sector privado. E este dificilmente ocorrerá. Por algum lado a corda vai ter de partir.

Aqui chegados, entendemos melhor os objectivos do moralismo económico. Não se trata de criar as condições para uma sociedade civilizada. Essa é a economia moral, entre outros, de Keynes, que exigiria uma política económica assente no investimento público para gerar emprego, coordenada e financiada à escala europeia. Trata-se simplesmente de aproveitar a crise para transformar a provisão pública em negócio privado para grupos económicos desesperados. Quem diria que a hipótese motivacional do Homo economicus, o egoísmo racional que Sen e Keynes tão bem criticaram, se aplicaria a tantos economistas portugueses com monopólio televisivo?

Economista e co-autor do blogue Ladrões de Bicicletas (www.ladroesdebicicletas.blogspot.com)


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