Queiroz. A demissão não estava na cabeça mas saiu-lhe pela boca
por Filipe Duarte Santos, Publicado em 26 de Julho de 2010
Gilberto Madaíl tinha 3,2 milhões de razões para segurar o seleccionador. Depois apareceu a ofensa a Luís Horta e a justa causa para despedi-lo
Para nós - jornalistas, público em geral - é o professor Queiroz. Longe das câmaras é o Carlos ("assim não ganhamos, Carlos!", grita-lhe Ronaldo em pleno jogo). E o Carlos parece ser muito mais que uma pessoa educada, pensativa e ponderada, incapaz de uma reacção anormal. O Carlos ofende e até é acusado de agredir (a cena de pugilato num aeroporto com o comentador Jorge Baptista), ataca quando toda a gente pensava que era defensivo (a entrevista ao "Sol" foi uma "vigarice execrável"), tem tendência para ficar desgovernado quando tudo na sua vida parece planeado. O último desgoverno pode custar-lhe o lugar de seleccionador nacional - foi ele próprio, o homem que não comete erros, a dar a Gilberto Madaíl o argumento para o despedir de borla, com justa causa. Que alívio, dirá o presidente da FPF e dirão muitos que o pressionam (Laurentino Dias, secretário de Estado do Desporto). Se assim não fosse, mandá-lo embora custaria 3,2 milhões de euros.
"Porque é que o Luís Horta não vai fazer controlo para a c... da mãe dele?": a frase começou a circular na internet (no blogue de António Boronha, antigo dirigente da Federação Portuguesa de Futebol) e foi atribuída a Carlos Queiroz, mal-humorado no dia em que recebeu a brigada da Autoridade Antidopagem (ADoP) em pleno estágio da selecção nacional, na Covilhã. Os funcionários da ADoP ficaram de olhos em bico, assim como os dois polícias que os acompanhavam ou o próprio staff médico da selecção. Afinal, o alvo (Luís Horta) era só o presidente da ADoP, ou seja, o bate-boca ofensivo já estava a entrar na esfera do Estado. Foi por isso que Laurentino Dias, o secretário de Estado do Desporto que tutela o organismo, mandou instaurar um processo e disse publicamente que o caldo estava entornado. "Os factos eram suficientemente graves para abrir um inquérito e despachá-lo para a Federação Portuguesa de Futebol. Fi-lo em defesa e protecção dos agentes que intervêm em nome do Estado em missões de interesse e serviço público." Ao mesmo tempo, nos bastidores, Laurentino terá comentado com Madaíl que não pode haver qualquer desculpabilização ou tolerância para com um treinador que até se tornou uma desilusão completa na África do Sul.
A reunião da FPF desta semana vai ser quente. Depois de lá nascer um apoio ao professor Queiroz, no encontro que se realizou para analisar o desempenho no Mundial, agora pode de lá sair uma carta de despedimento. Para o Carlos. A decisão não pode fugir ao tempo e o tempo diz que no próximo dia 3 de Setembro Portugal já joga com o Chipre, no primeiro encontro da fase de apuramento para o Euro-2012. Quem será o seleccionador? Carlos Queiroz, o professor fragilizado ao olhos dos jogadores, da opinião pública, da Federação e do governo? Dificilmente. O líder do caso Nani, da polémica com Deco, da ira de Cristiano Ronaldo, Liedson e Hugo Almeida, o treinador mais defensivo dos últimos anos (desde a convocatória à chamada de Ruben Amorim, até ao orgulho por jogar à defesa contra a Costa do Marfim, Brasil e Espanha) pode ter dado um passo em falso. A demissão não estava na cabeça mas se calhar saiu--lhe pela boca.
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