Sporting tenta outro negócio da China mas a salvação pode estar em Macau
por Bruno Roseiro, Publicado em 24 de Julho de 2010
Os leões querem abrir uma academia em solo chinês até 2012 com projecto mais rentável e lucrativo logo ali ao lado
Em Portugal, a crise obriga a aumentos de impostos. Ou a "apertar o cinto", uma expressão que se tornou típica no léxico nacional. Em Macau, os buracos do cinto tendem a alargar, de tal forma que, no próximo mês, cada um dos mais de 500 mil habitantes receberá do governo um bónus entre os 350 euros (residentes temporários) e os 600 euros (residentes efectivos). Os lucros do jogo estão a crescer numa média de 30% por trimestre e, segundo relatos locais, as lojas com malas da Louis Vuitton ou com roupas Channel ou Armani têm filas intermináveis com pessoas da China. O Sporting, com a colaboração da filial local, tem agora a oportunidade de abrir uma academia com todas as condições para explorar um filão como poucos mas, ao invés, pretende fazer erguer um projecto noutras condições na vizinha China até 2012. Em Macau, poucos - ou ninguém - perceberam o porquê. E salientam que, em 2008, na primeira vez que o plano foi apresentado, aquando da visita do ex-vice Menezes Rodrigues, o entusiasmo foi tal que se falou mesmo de "lição de sapiência".
"Depois enviei duas cartas para o Sporting: uma a Rogério de Brito, em Junho de 2009, e outra a José Eduardo Bettencourt, três meses depois. Não tive resposta e, pelo que se tem escrito, soube que o clube ia abrir uma academia na China. Achei estranho", explica ao i António Conceição Júnior, pintor, designer e dirigente cultural de 58 anos. Sem entrar em grandes detalhes, o líder do Sporting Clube de Macau aborda o teor das propostas. "A academia seria um primeiro instrumento, ao qual se seguiria o reforço das potencialidades do Sporting de Macau para habituar as pessoas ao nome Sporting, aqui e na China. Dessa progressão poder-se-ia promover o associativismo e o merchandising num mercado tão vasto como o chinês", salienta. "Por vontade do poder de Pequim, criou-se um Fórum da Lusofonia em Macau. Só entre 2002 e 2007 foram realizados negócios que começaram em 4,2 mil milhões de euros e atingiram os 46,35 mil milhões. Ou seja, um aumento de 700%..."
Conceição Júnior considera que, "sem metodologia ou estratégia, a academia seria algo desarticulado e só uma pequena percentagem do plano total que visaria ajudar a sanear as finanças do Sporting se cumpriria". "As engenharias financeiras aplicadas vão no sentido de negociar mais empréstimos e não em acabar com o passivo", algo que poderia ser invertido com um dos projectos que os dirigentes verdes-e-brancos têm em mão há quase um ano. "Em Macau ou na China, uma academia demoraria um ano a ser erguida. E, num prazo de cinco a sete anos, caso não surjam mais endividamentos, o saneamento financeiro do clube estaria concluído. É fazer as contas: bastavam dois milhões de sócios, uma pequena migalha no mercado chinês, a pagarem 10 euros/mês", refere, antes de alargar horizontes: "Se o projecto fosse cumprido na íntegra, poderia até ser fonte de consolidação orçamental e ajudaria a elevar o estatuto da liga portuguesa."
Alertando para a recente incursão do Benfica em território macaense - "e isto é como o futebol, quando não se marca o golo rápido arriscamo-nos a sofrer...", diz -, o responsável ressalva que, dentro dos problemas de espaço existentes para criar um novo complexo de treinos, encontrou já uma solução arquitectónica para o projecto. "A filial esteve cerca de 20 anos desactivada e, em Fevereiro de 2009, realizaram-se eleições. O meu pai não só tinha sido presidente do Sporting Clube de Macau como foi ainda atleta e campeão nacional pelo Sporting Clube de Portugal. Temos um treinador com o nível III da UEFA mas aqui somos todos amadores, apesar de termos subido de divisão na última temporada. Se alguns juniores rodassem cá um ano, por exemplo, iriam elevar de imediato o nível da equipa e, em paralelo, promoveriam o clube. É um pouco como a ideia que norteou a revolução da Nike - vamos deixar de ser uma empresa de equipamentos para sermos uma empresa de marketing cujos principais instrumentos de trabalho são os seus produtos...". Ainda assim, António Conceição Júnior tem duas esperanças: que a liga passe a ter jogos à tarde ("como a Premier League, porque a noite em Portugal é madrugada em Macau ou na China e ninguém se pode interessar") e... que alguém do Sporting ainda possa agarrar nos projectos. "Sempre para bem do clube", garante.
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