Crime
Homicídio. Os ventos que gelaram o Oeste
por Augusto Freitas de Sousa e Gonçalo Venâncio, Publicado em 24 de Julho de 2010
O triplo homicídio varreu as conversas da região. A Polícia Judiciária continua em buscas na casa de Francisco Leitão
"Se publicar uma fotografia minha, processo-vos", avisava a irmã de Francisco Leitão, Dina Leitão, à porta do "castelo" que nos últimos dias se tornou o mais conhecido na zona saloia, na Região do Oeste. Não foi necessário tribunal. As esferográficas não tiram fotos. À porta, o cunhado do "Rei Ghob" - como se auto-intitulava o suspeito de assassinar três jovens - e a irmã. Secos, descuidadamente vestidos, magros, espantados, com um olhar de quem, de repente, se vê num rodopio policial e mediático, Não queriam falar.
No interior da casa de Francisco Leitão, agentes da Polícia Judiciária ainda estavam esta sexta-feira a pesquisar o entulho, os ferros e alumínios espalhados entre obras inacabadas e uma sucata a perder de vista. Restos de automóveis, uma mangueira, canteiros, um compressor de ar, ferramenta diversa, escadas por fora com corrimões de alumínio, janelas fechadas a tijolo e câmaras de vigilância desactivadas, numa panóplia aparentemente sem sentido. A casa feita em cimento, com ameias, rodeada de estátuas, mais ou menos religiosas, faz lembrar um cenário da Idade Média num filme ao estilo Mad Max.
Cá fora, na pequena estrada entre Carqueja e Bufarda, entre os concelhos da Lourinhã e Peniche, um casal de meia idade abrandava para confirmar se aquela era a casa que viram na televisão. Era. "Um passeio como outro qualquer", justificava o marido, enquanto gastava meia embraiagem do Opel Corsa para sair apressado.
A calma das povoações está, contudo, ameaçada pelo escândalo e pelo crime. O vento habitual da zona vai trazendo as conversas em surdina, porque abertamente ninguém quer avançar uma explicação para o sucedido. Um silêncio que contrasta com os gritos de alguns familiares e amigos das vítimas à porta do tribunal de Torres Vedras, prontos para clamar "assassino" aos microfones do país.
Vida fácil As localidades são pequenas e os IC e auto-estradas abertos há meia dúzia de anos evitam os forasteiros. Francisco Leitão é, por isso, conhecido de muita gente. Para os mais velhos, afável, prestável. Para os mais novos, original, sedutor. Na zona, toda a gente sabia que os jovens, alguns menores idade, frequentavam a casa de Francisco Leitão.
Os pais mais zelosos proibiram as visitas, outros condescenderam. Um deles, com algum arrependimento na voz, acedeu a contar o que os miúdos lhe diziam. No recato de um armazém, longe dos olhares curiosos, A.F. conta que o filho descrevia Francisco Leitão como o amigo que os levava de carro, que lhes dava dinheiro para cigarros, que os aliciava para irem para sua casa. No início disse aos pais que não havia nada de mal. Por fim, aceitou que estava a ser manipulado. Contaram-lhe que Joana - uma das vítimas - e o namorado chegaram a ficar em casa de Francisco enquanto ele estava fora. "Jovens levados pela novidade, pelo dinheiro e vida fácil", concluiu.
Sobre o que faziam, pouco se sabe. Os vídeos na net são a face mais visível de uma casa com histórias por contar. Na Escola Secundária de Peniche, alguns vídeos chegaram a circular entre telemóveis e os jovens que estavam identificados acabaram por sofrer alguma discriminação. Uma vizinha percebeu que um familiar estava em casa de Francisco Leitão e resolveu ir buscá-lo. Pelo buraco da fechadura, viu alguns homens bêbados com as calças para baixo. Outros relatos dão conta do consumo exagerado de álcool.
Ninguém se preocupava com o dinheiro, nem de onde ele vinha, mas as suspeitas do tráfico e viciação de automóveis ganham agora mais sentido. O i descobriu uma garagem na localidade de Olho Marinho arrendada a Francisco Leitão. O dono explicou que o suspeito de ter morto três jovens se prontificou a pagar uma renda de 250 euros por mês para guardar automóveis. Viu um camião, uma carrinha e ainda lá está um Mitsubishi com matrícula de 2004. Francisco nunca pagou a renda. E o automóvel continua na garagem, fechado, com alguma documentação no interior.
Sabe-se que o suspeito teve uma filha de uma jovem que emigrou para França. Na casa, chegou a viver a irmã Dina com o marido e dois filhos. Mais tarde, uma nova relação de Dina e mais uma criança. Um dos irmãos de Francisco Leitão mora na Alemanha e outro na Bufarda, mas este também não quis adiantar nada sobre o assunto. O pai mora há anos em Lisboa, mas quando soube do caso, não quis acreditar. Estava, segundo um investigador, inconsolável. Com Inês Cardoso
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