A ilusão dos gurus
por Paul Krugman, Publicado em 23 de Julho de 2010
Em situações normais, o que regula as relações dos dirigentes com o eleitorado não são os fazedores de opinião nem os gurus. São as percepções das pessoas comuns no seu dia-a-dia
O último tema quente da política é o "paradoxo Obama", o alegado desfasamento entre as realizações do presidente e a sua quota de popularidade. A cantilena é esta: a administração tem tido várias vitórias no Congresso, particularmente a da reforma da saúde, e, no entanto, o índice de popularidade do presidente Barack Obama é fraco. Daí decorre a especulação sobre o que mantém esses valores em baixo: é demasiadamente liberal para um país de centro-direita; não, é por ser excessivamente intelectual, demasiado Mr. Spock para eleitores que gostam de mais exteriorização. E por aí fora.
Contudo, o único mistério é a persistência da ilusão dos gurus, a crença de que a matéria do quotidiano político (quem ganhou o ciclo das notícias, quem conseguiu reemergir com mais dinamismo, etc.) tem de facto alguma importância.
Essa ilusão é, evidentemente, mais dominante entre os próprios gurus, mas está também disseminada entre os agentes políticos. E tenho para mim que a susceptibilidade à ilusão dos gurus faz parte do problema da administração Obama.
Ao contrário dos gurus, o que nos dizem os politólogos é que tudo acaba por ir dar à economia. Hoje em dia são atribuídas a Ronald Reagan qualidades políticas quase divinas, mas no Verão de 1982, quando a economia dos Estados Unidos estava em má situação, o índice de popularidade de Reagan era de apenas 42%.
Larry Bartels, meu colega de Princeton, resume a situação da seguinte maneira: "As condições económicas objectivas (e não uma promoção televisiva inteligente, os desempenhos nos debates nem outros acontecimentos efémeros da campanha quotidiana) são o principal factor de influência nas perspectivas de reeleição de um presidente em exercício." Se a economia estiver a melhorar significativamente nos meses que antecedem uma eleição, os detentores do cargo têm bons resultados; se estiver estagnada ou em retrocesso, têm maus resultados.
Ora bem, o facto de os factores efémeros não terem importância é positivo, já que indica que os eleitores não são influenciados por truques baratos. Contudo, e infelizmente, tudo indica que os temas também não têm importância, em parte porque os eleitores são muitas vezes pessoas mal informadas.
Suponhamos, por exemplo, que o leitor acredita nas afirmações de que os eleitores estão mais preocupados com o défice que com o desemprego (isso não é verdade, mas não importa agora). Nesse cenário, que crédito esperaria que os democratas obtenham por terem reduzido o défice?
Nenhum. Em 1996 perguntou-se aos eleitores se o défice tinha subido ou descido durante o consulado de Bill Clinton. Apesar de ter descido significativamente, muitos eleitores e a maioria dos republicanos afirmaram que tinha aumentado.
Não serve de nada recriminar os eleitores pela ignorância que manifestam: as pessoas têm contas para pagar e filhos para educar e na sua maioria não passam o tempo livre a analisar estatísticas. A verdade é que reagem ao que se passa nas suas próprias vidas e nas das pessoas que conhecem. Perante a realidade sombria do panorama do emprego, as pessoas estão descontentes e determinadas a penalizar quem está no governo.
Que deveria Obama ter feito? Alguns analistas políticos, como Charlie Cook, dizem que ele cometeu um erro ao apostar na reforma da saúde e que devia ter-se preocupado com a economia. Todavia, tanto quanto sei, essas análises não apontam para a adopção de uma política em detrimento de outra. O que dizem é ele devia ter falado mais sobre o assunto. Mas o que importa verdadeiramente são os resultados económicos.
A melhor maneira de Obama evitar um desaire eleitoral no próximo Outono seria ter lançado um estímulo de grau correspondente ao da crise económica. É patente que não o fez. Talvez porque não teria conseguido a aprovação de um plano de amplitude adequada, mas a verdade é que nem sequer tentou. É verdade que os principais responsáveis económicos desvalorizaram a necessidade de empreender um esforço francamente grande (sobrepondo-se, aliás, à opinião dos quadros que chefiam), mas também é evidente que os conselheiros políticos acreditaram que um pacote de menor dimensão seria objecto de manchetes mais positivas e a administração ficaria mais bem vista se ganhasse o seu primeiro confronto no Congresso.
Enfim, tudo indica que a própria administração se rendeu à ilusão dos gurus, preocupando--se com o modo como as medidas seriam recebidas pela comunicação social e não com o seu impacto na economia.
Os republicanos, diga-se, parecem menos susceptíveis a esta ilusão. Desde que Obama foi empossado, têm empreendido uma obstrução incansável, obviamente indiferentes ao modo como as suas acções seriam vistas ou relatadas. E isso está a dar frutos: ao bloquear os esforços dos democratas para aliviar os problemas económicos, o Partido Republicano está a melhorar as hipóteses de ter uma vitória retumbante em Novembro.
Poderá Obama fazer alguma coisa no tempo que lhe resta? As eleições intercalares, em que a afluência às urnas é vital, não são bem como as presidenciais, em que a economia é tudo. A melhor estratégia de Obama nesta fase é colmatar o "fosso de entusiasmo", tomando posições fortes que levem os democratas a sair à rua e a votar. Mas não é de esperar que isso aconteça.
Aquilo que acho que vai acontecer, se e quando as eleições intercalares correrem mal, é que os suspeitos do costume venham dizer que isso se deve ao facto de Obama ser demasiado liberal, quando o grande erro do presidente foi não fazer o suficiente para criar emprego.
Economista Nobel 2008
Exclusivo i/The New York Times
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