O paradoxo ideológico de Cameron

por José Tomaz Castello Branco, Publicado em 21 de Julho de 2010   
Opções
a- / a+
Há pouco mais de uma década o sorridente Tony Blair parecia ter enterrado o Old Labour e anunciava um New Labour que, de tão novo, parecia irreconhecível à própria família trabalhista. Alguns socialistas de mais provecta idade poderão mesmo não ter resistido ao choque da leitura de um artigo, da autoria do próprio Blair, no "The Neocon Reader", organizado por Irwin Stelzer, (2004). Agora é a vez de David Cameron pôr em marcha a sua própria visão de um conservadorismo mais cool: a "Big Society". A ideia deu à luz em Novembro passado, na Hugo Young Memorial Lecture - uma palestra organizada pelo "The Guardian". Logo em seguida, a "Prospect" faz uma capa jocosa com uma montagem da cara de Margaret Thatcher com uma boina à Che Guevara sobre fundo encarnado. A alusão é óbvia. Tal como é óbvia a proximidade com o título programático da administração Democrata de Lyndon Johnson: a "Great Society". O propósito de Cameron é, aparentemente, conservador: recentrar os tories entre o desmantelamento do Estado (característico dos libertários), e a estatização crescente (apanágio dos socialistas). Esta recentragem passa por revalorizar as chamadas instituições intermédias, "ajudando as famílias, os indivíduos, as instituições de solidariedade e as comunidades a unirem esforços para resolverem os problemas". Mas, se lermos o discurso de Cameron um pouco para além da superfície, encontraremos um objectivo, repetido, que dificilmente poderá ser conjugado em qualquer oração conservadora: trata-se do objectivo de "refazer a sociedade". Nem mais! E este é um objectivo marcado a longuíssimo prazo. Como o próprio reconhece: "A mudança cultural é muito mais difícil que o controlo do Estado. Ela demorará mais que uma geração". Refazer não é um verbo inocente para um conservador. Vem-me à memória um desabafo célebre de um inglês vitoriano: "Reform! Reform! Aren't things bad enough already?" Professor de Ciência Política, Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica Portuguesa


Qual a sua reacção:
Tem mais informações sobre esta notícia?
Conte a sua história. Seja um iRepórter.

Notícia relacionada

Close